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CULTIVAR CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA N.35 | maio 2026 | Olival e azeite

1 CULTIVAR Cadernos de Análise e Prospetiva

CULTIVAR Cadernos de análise e prospetiva® N.º 35 | Olival e azeite | maio de 2026 (esta edição inclui a Separata – Panorama dos números do olival e do azeite) Propriedade Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) Praça do Comércio, 1149-010 Lisboa Telefone: + 351 213 234 600 e-mail: [email protected] | website: www.gpp.pt Equipa editorial Coordenação: Ana Sofia Sampaio, Eduardo Diniz, Manuel Loureiro Ana Filipe Morais, Ana Rita Moura, António Cerca Miguel, Cristina Sá, Eduardo Lopes, Helena Alegre, João Marques, Rui Trindade e-mail: [email protected] Colaboraram neste número Afonso da Ponte, António M. Cordeiro, Asmaa Ben Maïmoun, Carla S.F. Inês, Catarina Manuelito, Diogo Coelho, El Mostafa El Kabous, Elsa Ramalhosa, Fernando do Rosário, Francisco Campello, Gonçalo Moreira, Helena Sapeta, Ignacio J. Lorite, Javier Hidalgo, Lorenzo León, Jaime Lillo, João Guerra, Joaquim Moreira, José Alberto Pereira, José Pedro Salema, José Gouveia, José Pragana, Julia Álvarez, Mariana Matos, Nuno Rodrigues, Nuno Santos, Susana Gaspar, Samir Sayadi, Tawfik El Achchabi, Vasco Fitas da Cruz, Welida Keller Edições anteriores: https://www.gpp.pt/index.php/publicacoes-gpp/cultivar-cadernos-de-analise-e-prospetiva Edição: Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) Execução gráfica e acabamento: Sersilito – Empresa Gráfica, Lda. Tiragem: 1 000 exemplares ISSN: 2183-5624 Depósito Legal: 394697/15

CULTIVAR Cadernos de Análise e Prospetiva N.º 35 maio de 2026 Olival e azeite

Índice 7/11 | EDITORIAL SECÇÃO I – GRANDES TENDÊNCIAS 15/25 | EVOLUÇÃO DO CONSUMO MUNDIAL DE AZEITE: TENDÊNCIAS E DESAFIOS Evolución del consumo mundial de aceite de oliva: tendencias y desafíos Jaime Lillo e Julia Álvarez 27/38 | SITUAÇÃO ATUAL DA OLIVICULTURA MARROQUINA E PERSPETIVAS PARA O SEU DESENVOLVIMENTO SITUATION ACTUELLE DE L’OLÉICULTURE MAROCAINE ET PERSPECTIVES DE SON DÉVELOPPEMENT Tawfik El Achchabi, El Mostafa El Kabous e Asmaa Ben Maïmoun 39/54 | SITUAÇÃO ATUAL E FUTURO DO OLIVAL EM ESPANHA SITUACIÓN ACTUAL Y FUTURO DEL OLIVAR EN ESPAÑA Lorenzo León, Ignacio J. Lorite, Javier Hidalgo e Samir Sayadi 55/62 | O FUTURO DA OLIVICULTURA E DO AZEITE: PRINCIPAIS OPORTUNIDADES E DESAFIOS Francisco Campello 63/69 | PORTUGAL OLIVÍCOLA E OLEÍCOLA José Gouveia SECÇÃO II – OBSERVATÓRIO 73/84 | A PERSPETIVA DO SETOR Joaquim Moreira, Nuno Santos, Fernando do Rosário e Gonçalo Moreira 85/88 | OLIVAL EM ALQUEVA: SUSTENTABILIDADE, INVESTIMENTO E DESENVOLVIMENTO REGIONAL José Pedro Salema 89/98 | OLIVAL DO FUTURO: COMO SELECIONAR OS MELHORES MATERIAIS PARA A PRODUTIVIDADE, A SUSTENTABILIDADE E A EFICIÊNCIA EM CONTEXTO DE ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS António M. Cordeiro, Carla S.F. Inês, Catarina Manuelito, Welida Keller, Afonso da Ponte, Helena Sapeta, José Pragana e João Guerra

6 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite 99/103 | EXCEDENTES DO OLIVAL COMO RECURSO ESTRATÉGICO: CONTRIBUTOS DO PROJETO INOVCIRCOLIVE PARA A CIRCULARIDADE NO SETOR OLEÍCOLA Vasco Fitas da Cruz e Diogo Coelho 105/112 | AZEITONA DE MESA: CULTIVARES, TERRITÓRIO E IDENTIDADE Nuno Rodrigues, Elsa Ramalhosa e José Alberto Pereira 113/118 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS EM PORTUGAL NO APOIO AO OLIVAL João Marques 119/124 | DO OLIVAL À MESA: A EVOLUÇÃO DA ALIMENTAÇÃO E O VALOR NUTRICIONAL DO AZEITE Susana Gaspar SECÇÃO III – LEITURAS 127/131 | SUSTENTABILIDADE DOS OLIVAIS EM PORTUGAL Síntese do estudo com o mesmo nome, da Agro.Ges, 2022, por Ana Rita Moura 133/134 | SISTEMA DE CONTROLO DO AZEITE NA UE – QUADRO ABRANGENTE, MAS APLICAÇÃO DESIGUAL Síntese do Relatório Especial 01/2026, com o mesmo nome, do Tribunal de Contas Europeu, por Helena Alegre 135/137 | ACORDO DE PARCERIA UNIÃO EUROPEIA-MERCOSUL – IMPACTO NO SETOR DO AZEITE NACIONAL Breve análise deste Acordo, por Eduardo Lopes 139/140 | O OLIVAL EM PORTUGAL – DINÂMICAS, TECNOLOGIAS E RELAÇÃO COM O DESENVOLVIMENTO RURAL Síntese do estudo com o mesmo nome, de Pedro Reis, 2014, por Manuel Loureiro 141/143 | A OLIVICULTURA EM A AGRICULTURA NA HISTÓRIA DE PORTUGAL Síntese dos capítulos relevantes desta obra de Eugénio Castro Caldas, 1998, por Cristina Sá SEPARATA – Panorama dos números do olival e do azeite 5/68 | PANORAMA DOS NÚMEROS DO OLIVAL E DO AZEITE Rui Trindade com a colaboração de Helena Alegre

7 A presente edição da CULTIVAR é dedicada ao setor do olival e do azeite. O dinamismo recente desta fileira, em Portugal e no mundo, associado à realização em Lisboa de importantes eventos internacionais dedicados ao setor, torna particularmente oportuno este olhar aprofundado sobre uma cultura histórica, profundamente enraizada na identidade e na paisagem agrícola nacional. O olival e o azeite estão intimamente ligados a uma planta endógena de valor botânico, agronómico, histórico e cultural incontornável para os países produtores. Poucas culturas agrícolas conseguiram, ao longo de milénios, manter uma relação tão profunda com os territórios, as paisagens, a alimentação (e outras utilizações) e as comunidades rurais. A oliveira acompanhou civilizações, resistiu a condições adversas, moldou economias locais e tornou-se símbolo de permanência, resiliência e adaptação. Essa resiliência constitui, aliás, uma das maiores forças desta cultura num contexto de profundas alterações climáticas. A capacidade de adaptação da oliveira a condições edafoclimáticas difíceis, particularmente nas exigências em água, associada a métodos de produção relativamente simples quando comparados com outras culturas permanentes, contribuiu para consolidar a sua expansão e a sua permanência nos territórios mediterrânicos. A forte ligação do azeite à gastronomia, à dieta mediterrânica e aos benefícios reconhecidos para a saúde tem igualmente desempenhado um papel decisivo na valorização internacional do produto e na diferenciação em relação aos produtos industriais concorrentes. Editorial EDUARDO DINIZ Diretor-geral do GPP Fotografia do autor – Olival tradicional, Foz Côa, 2024

8 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite Nas últimas décadas, o setor oleícola viveu uma transformação particularmente relevante. O azeite passou de um produto frequentemente associado a uma imagem tradicional, pouco diferenciada e até, em certos contextos, depreciativa, para um produto de elevado prestígio. Também a imagem dos produtores e dos territórios associados ao olival evoluiu profundamente. Hoje, o azeite afirma-se como uma fileira estratégica à escala global, conciliando a natureza de commodity agrícola com uma crescente valorização assente na diferenciação, na qualidade e na identidade territorial. Esta transformação não ocorreu por acaso. Foi o resultado de décadas de investimento, inteligência estratégica e capacidade de adaptação dos agentes do setor. A valorização de um setor tradicional e de um produto historicamente pouco diferenciado constitui um caso assinalável de sucesso coletivo. O investimento em tecnologia, mecanização, regadio e inovação permitiu aumentar a produtividade e criar um setor competitivo. A aposta na qualidade, na modernização produtiva, na inovação tecnológica, na internacionalização e na construção de marcas permitiu afirmar o azeite nos mercados globais, beneficiando simultaneamente da crescente valorização dos padrões alimentares mediterrânicos e da procura mundial por produtos associados à saúde e à sustentabilidade. As tendências internacionais confirmam esta trajetória. O mercado mundial do azeite continua a apresentar perspetivas de crescimento sustentado, impulsionado pelo aumento do consumo em novos mercados, pela valorização nutricional do produto e pela procura crescente de alimentos naturais e funcionais. Paralelamente, a volatilidade dos mercados agrícolas e os efeitos das alterações climáticas reforçam a importância estratégica de culturas resilientes e adaptadas às condições mediterrânicas, como a oliveira. Em Portugal, as políticas públicas tiveram um papel particularmente relevante neste percurso de transformação. A conjugação entre apoios ao investimento, modernização das explorações, desenvolvimento do regadio individual e coletivo, inovação tecnológica e capacidade de atração de investimento e capital externo permitiu criar um setor mais competitivo, mais produtivo e mais exportador. Ao mesmo tempo, os pagamentos agroambientais e os instrumentos de apoio aos sistemas tradicionais contribuíram para preservar dimensões fundamentais do património olivícola nacional. Importa reconhecer que uma das evoluções mais interessantes do setor português foi precisamente a capacidade de coexistência entre diferentes modelos de produção. Ao contrário de algumas expectativas iniciais, a dicotomia entre olivais mais intensivos e olivais tradicionais não conduziu à exclusão de um sistema pelo outro. Pelo contrário, verificou-se uma coexistência dinâmica entre modelos distintos, frequentemente complementares. Os sistemas mais intensivos permitiram ganhos de escala, competitividade internacional, capacidade exportadora e modernização tecnológica. Os sistemas tradicionais, por seu lado, preservaram paisagens, biodiversidade, património cultural, variedades autóctones e formas de ocupação do território particularmente relevantes em regiões mais vulneráveis. Em muitos casos, estes dois modelos alimentam-se mutuamente e podem valorizar-se reciprocamente, seja através da diferenciação comercial, da complementaridade territorial ou da valorização crescente da autenticidade e da origem. É importante, contudo, reconhecer e enfrentar de forma contínua os desafios associados à viabilidade económica dos olivais de menor produtividade, bem como assegurar uma conciliação entre os modelos de produção mais intensivos e os objetivos de sustentabilidade ambiental. O desafio para o futuro estará precisamente em aprofundar esta capacidade de conciliação entre competitividade, sustentabilidade e valorização territorial. Produzir mais e melhor continuará a ser importante. Mas será igualmente decisivo assegurar uma gestão equilibrada dos recursos naturais, reforçar a valorização económica das comunidades rurais e consolidar a reputação internacional do azeite português enquanto produto de qualidade, cultura e identidade.

Editorial 9 Esta edição da CULTIVAR procura precisamente contribuir para essa reflexão, reunindo diferentes perspetivas nacionais e internacionais sobre um setor que representa hoje uma das expressões mais dinâmicas, resilientes e estratégicas da agricultura mediterrânica contemporânea. O artigo de Jaime Lillo e Julia Álvarez, do Conselho Oleícola Internacional (COI), que abre esta edição, sublinha que o mercado mundial do azeite vive uma transformação estrutural, marcada pelo crescimento da procura, pela modernização da produção e pela expansão para novos mercados. Apesar da volatilidade dos preços, agravada pelas alterações climáticas, o setor tem-se vindo a adaptar através da inovação, da valorização da qualidade e da aposta na sustentabilidade. Como referem os autores, “o azeite deixou de ser apenas um produto agrícola tradicional” para se afirmar como um bem estratégico no comércio global. Tawfik El Achchabi et al., do Ministério da Agricultura, da Pesca Marítima, do Desenvolvimento Rural e das Águas e Florestas de Marrocos, salientam que a olivicultura marroquina é um setor estratégico, essencial para a economia rural, o emprego e as exportações, que tem vindo a ser apoiado por políticas como o Plano Marrocos Verde e a Geração Verde. Com mais de 1,24 milhões de hectares de olival, Marrocos modernizou a produção e reforçou a sua presença internacional, apesar dos desafios climáticos e hídricos. Os autores afirmam que se trata de um setor “profundamente enraizado nas tradições das nossas zonas rurais” e com forte potencial de crescimento sustentável. Para Lorenzo León et al., do Instituto Andaluz de Investigação e Formação em Agricultura, Pescas, Alimentação e Produção Biológica (IFAPA) de Espanha, a olivicultura neste país, com mais de 2 500 anos de história, evoluiu de uma cultura tradicional para um setor altamente modernizado e líder mundial na produção de azeite. A intensificação, a mecanização, a irrigação e a inovação varietal reforçaram a competitividade, apesar dos desafios das alterações climáticas, da escassez de água e da fragmentação das explorações. Os autores destacam que “o olival do futuro tem, pois, uma base sólida”, assente na investigação, na digitalização e na sustentabilidade. Francisco Campello, da Agro.Ges, considera que Portugal se consolidou como um protagonista mundial no setor do azeite, fruto da modernização da olivicultura e da aposta em regadio, mecanização e qualidade — hoje, é o 6.º maior produtor global. No entanto, adverte também que o setor enfrenta desafios como alterações climáticas, escassez de água, concorrência internacional e volatilidade dos mercados. A concluir, o autor salienta que “o futuro do setor passará por combinar competitividade, sustentabilidade e diferenciação”, valorizando inovação, marcas e património genético. Por seu lado, José Gouveia, elaiólogo e antigo professor do Instituto Superior de Agronomia (ISA), traça o percurso da oliveira, desde as suas origens possivelmente na Ásia Menor, espalhando-se depois pelo Mediterrâneo e tornando-se símbolo de paz, sabedoria e prosperidade. Domesticada entre 10 000 e 3 000 a.C., esta cultura foi difundida por gregos, romanos e povos do Norte de África. O azeite, definido pelo autor como “sumo de azeitona” ou “ouro líquido”, destaca-se na Dieta Mediterrânea pelos benefícios cardiovasculares e nutricionais, sendo hoje produzido globalmente e valorizado tanto em termos de saúde como de gastronomia. No Observatório, começamos com um já habitual artigo de auscultação ao setor, desta vez com os contributos de Joaquim Moreira, da Acushla, uma empresa de produção biológica de azeite localizada em Trás-os-Montes, Nuno Santos, da Casa do Azeite − Associação do Azeite de Portugal, Fernando do Rosário, da Associação Interprofissional da Fileira Olivícola (AIFO) e Gonçalo Moreira, da Olivum − Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal e do Programa de Sustentabilidade do Azeite (PSA). De seguida, José Pedro Salema, da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), mostra como o olival moderno em Alqueva transformou a agricultura portuguesa, ocupando 76 589 hectares (60% da área regada) em 2025. Graças ao regadio e à tecnologia, a produção nacional de

10 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite azeite quadruplicou desde a década de 1990, crescendo 320%. Esta evolução tornou o setor altamente competitivo e profissional, colocando Portugal entre os maiores produtores e exportadores mundiais de azeite. O artigo de António M. Cordeiro et al., do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária I.P. (INIAV), sublinha que a olivicultura enfrenta desafios como alterações climáticas, escassez de água e necessidade de mecanização e que, para os enfrentar, há que destacar a importância das variedades nacionais e do melhoramento genético para criar olivais mais produtivos, resilientes e sustentáveis. A combinação entre conservação genética, seleção de materiais adaptados e tecnologias digitais, sensores e inteligência artificial permitirá otimizar rega, fertilização e produtividade no futuro. Vasco Fitas da Cruz e Diogo Coelho, da Universidade de Évora, afirmam que o setor oleícola em Portugal, sobretudo no Alentejo, se tornou mais produtivo e competitivo, mas gerou também mais excedentes como bagaço, folhas e águas residuais. O projeto INOVCIRCOLIVE, uma parceria de investigação, desenvolvimento e implementação entre múltiplas instituições públicas e entidades privadas, desenvolveu soluções como compostagem, aplicação ao solo e extração de compostos bioativos, promovendo economia circular, redução de custos e maior sustentabilidade na fileira do azeite. O artigo de Nuno Rodrigues et al., do CIMO – Centro de Investigação de Montanha, constata que a olivicultura em Portugal tem um grande valor económico, social e ambiental, destacando os olivais tradicionais e as cultivares autóctones. Contudo, estes enfrentam algumas ameaças devido à intensificação agrícola. Em Trás-os-Montes, a valorização sustentável, aliada à inovação e ao estudo científico, é essencial para preservar a biodiversidade, a qualidade e a identidade dos produtos oleícolas. A investigação efetuada pelos autores evidencia o elevado valor nutricional das azeitonas nacionais. João Marques, do GPP, salienta que, no âmbito da PAC, o setor do olival beneficia de um vasto conjunto de apoios, nomeadamente ao investimento, ao regadio e à gestão, o que contribui de um modo muito relevante para o grande crescimento do olival moderno, mas as políticas públicas têm reforçado igualmente o apoio ao sistema tradicional, através de intervenções agroambientais específicas. De facto, o olival tradicional continua a ser essencial para a paisagem, a cultura e a sustentabilidade rural em Portugal, e estes apoios ajudam a preservar a biodiversidade, combater o êxodo rural e promover azeites de elevada qualidade e autenticidade, sendo vitais para preservar um sistema de baixa densidade que, embora menos produtivo, é fundamental não deixar ao abandono. O artigo de Susana Gaspar, do GPP, traça a evolução do azeite desde a Antiguidade até à atualidade, destacando o seu papel central na dieta mediterrânica e na cultura alimentar portuguesa. Além do valor histórico e simbólico, evidencia os benefícios nutricionais deste bem alimentar, sobretudo do azeite virgem extra, rico em gorduras saudáveis e compostos antioxidantes, referindo o seu papel central na (nova) Roda dos Alimentos e na Roda da Alimentação Mediterrânica. Defende ainda a promoção deste padrão alimentar como modelo de saúde, sustentabilidade e identidade cultural. Fotografia de Artur Pastor – Apanha da azeitona, Alentejo, década de 1950/60, Arquivo Municipal de Lisboa / Fotográfico

Editorial 11 Na secção Leituras, analisamos desta vez: um estudo de Francisco Campello para a Agro.Ges, Sustentabilidade dos olivais em Portugal – desafios e respostas; um recente Relatório Especial do Tribunal de Contas Europeu, Sistema de controlo do azeite na UE – Quadro abrangente, mas aplicação desigual; o Acordo de Parceria União Europeia-Mercosul e respetivo papel, sobretudo no caso do Brasil, em termos de impacto no setor do azeite em Portugal; um estudo de Pedro Reis, do INIAV, intitulado O olival em Portugal – dinâmicas, tecnologias e relação com o desenvolvimento rural e, finalmente, os capítulos relevantes para o setor do olival e do azeite do livro de Eugénio Castro Caldas, A agricultura na História de Portugal. Esta segunda edição setorial da CULTIVAR inclui também uma Separata, da autoria de Rui Trindade e colaboração de Helena Alegre, do GPP, que reúne dados estatísticos sobre a evolução do setor olivícola e oleícola, começando com um enquadramento a nível global que oferece ao leitor uma panorâmica do setor no mundo, focando-se de seguida na União Europeia e centrando-se finalmente em Portugal, com uma análise simultaneamente mais abrangente e mais específica sobre os diversos aspetos desta cultura no nosso país. Este zoom feito à realidade olivícola e oleícola mostra claramente o olival como uma das principais paisagens agrícolas do Mediterrâneo e revela o impacto da recente modernização e aumento de competitividade do setor, não deixando de chamar a atenção para os desafios que enfrenta ligados às alterações climáticas, à gestão da água e à sustentabilidade.

Editorial 13 GRANDES TENDÊNCIAS N.º 35 maio de 2026

CULTIVAR v.t. TRABALHAR A TERRA PARA TORNÁ-LA FÉRTIL.

15 Evolução do consumo mundial de azeite: tendências e desafios JAIME LILLO E JULIA ÁLVAREZ Conselho Oleícola Internacional (COI) O azeite não é apenas um produto emblemático da nossa gastronomia, com profundas raízes na cultura e tradição da bacia mediterrânica, é também um produto cada vez mais reconhecido pelos consumidores de todo o mundo. Para além da sua dimensão cultural e gastronómica, o azeite consolidou-se como um produto com uma relevância crescente no comércio agroalimentar global, sujeito às tensões e oportunidades próprias de um mercado cada vez mais interligado. A sua evolução atual responde a três grandes tendências interrelacionadas: a volatilidade dos preços, provocada por fatores climáticos e produtivos; o aumento do valor do produto, impulsionado pela preferência por azeites de maior qualidade e valor acrescentado; e a expansão para novos mercados, que está a alterar o padrão mundial de consumo e a gerar novas oportunidades de crescimento a médio e longo prazo. Um mercado volátil num contexto de crescimento estrutural A primeira grande tendência que define a evolução recente do setor do azeite é a crescente volatilidade do mercado. Este fenómeno está intimamente ligado a fatores climáticos adversos, como secas prolongadas, temperaturas extremas e significativas reduções da colheita nos principais países produtores. Estas oscilações têm-se acentuado nos últimos anos em resultado do impacto das alterações climáticas na bacia mediterrânica. Gerou-se assim uma maior incerteza tanto para os produtores como para os consumidores, com alterações nas expectativas de oferta e pressão acrescida sobre os preços. No entanto, este contexto de instabilidade fomentou também estratégias mais sofisticadas de planeamento, diversificação e gestão de risco dentro do setor, reforçando a sua profissionalização. Este desafio insere-se numa tendência estrutural claramente expansiva. Nas três últimas décadas, tanto a produção como o consumo mundial de azeite quase triplicaram, refletindo a consolidação progressiva do produto no mercado agroalimentar internacional. A produção passou de 1 453 000 toneladas na campanha de 1990/91 para 3 572 000 em 2024/25, enquanto o consumo mundial aumentou de 1 666 500 para 3 215 000 toneladas no mesmo período. A campaA evolução atual responde a três grandes tendências interrelacionadas: a volatilidade dos preços, o aumento do valor do produto e a expansão para novos mercados

16 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite nha de 2021/22 representou um marco histórico, com 3 414 500 toneladas de produção e 3 328 000 de consumo, confirmando uma dinâmica de crescimento sustentado que transcende as flutuações pontuais de cada campanha. Convém recordar que o consumo mundial de azeite se situa em cerca de 2% do consumo global de óleos vegetais, pelo que há margem para continuar a crescer. De uma perspetiva histórica, estes progressos têm sido acompanhados por uma profunda transformação estrutural do olival. No início da década de 1980, a área mundial de olival situava-se em cerca de 7,5 milhões de hectares, na sua maioria em regime de sequeiro e concentrada nos países mediterrânicos. Atualmente, aproxima-se dos 11,5 milhões de hectares, distribuídos pelos cinco continentes. Esta expansão responde não só ao aumento da procura internacional, mas também à adoção de novos modelos de produção, incluindo sistemas intensivos e superintensivos, e a um processo de modernização tecnológica sem precedentes. A mecanização da colheita, a digitalização da rega, o melhoramento genético das variedades e a inovação nos lagares transformaram uma cultura tradicional numa atividade altamente tecnológica, eficiente e orientada para uma qualidade diferenciada. Apesar desta evolução positiva, a produção continua a concentrar-se sobretudo na bacia mediterrânica, com Espanha a assumir uma liderança destacada como primeiro produtor mundial, seguida por Itália, Grécia, Portugal, Turquia e Tunísia, que desempenham um papel fundamental na oferta global. Esta sólida base estrutural não elimina um dos principais desafios do setor: a sua elevada exposição aos fatores climáticos. As condições adversas registadas recentemente provocaram uma contração significativa da produção mundial, que passou de 3,41 milhões de toneladas em 2021/22 para 2,76 milhões em 2022/23, o que representa uma quebra de cerca de 22%. Esta redução alterou imediatamente o equilíbrio do mercado e desencadeou fortes tensões nos preços. É de salientar que nunca se tinha registado uma diminuição da produção mundial de azeite em duas campanhas consecutivas, como observámos nas campanhas de 2022/23 e 2023/24. Paralelamente, o consumo mundial também não evoluiu de forma uniforme. Por um lado, em consequência da pandemia de COVID-19, observámos um maior interesse dos consumidores em cuidar da sua saúde e um aumento do consumo mundial de azeite, principalmente em mercados não tradicionais. Por outro lado, a procura teve de se adaptar à queda na produção de azeite e, durante as campanhas de 2022/23, o consumo estimado desceu para menos de 3 milhões de toneladas. A menor disponibilidade do produto elevou os preços a níveis historicamente elevados e gerou uma resposta de moderação da procura, especialmente nos mercados mais sensíveis ao preço e onde o azeite constitui um produto tradicional de consumo diário. … a produção continua a concentrar-se sobretudo na bacia mediterrânica, com Espanha a assumir uma liderança destacada como primeiro produtor mundial, seguida por Itália, Grécia, Portugal, Turquia e Tunísia… Figura 1 – Evolução da produção e do consumo de azeite 1990-2026 (valores em 10³ t) Fonte: COI 2026

Evolução do consumo mundial de azeite: tendências e desafios 17 No entanto, a recuperação da produção iniciada em 2024/25, com um volume superior a 3,5 milhões de toneladas e uma relativa moderação dos preços, deu um novo impulso ao consumo, que ultrapassou os 3,2 milhões de toneladas, com perspetivas de consolidação em 2025/26. Assim, embora a volatilidade conjuntural continue a ser um desafio relevante, a tendência estrutural do setor continua a ser no sentido da expansão, sustentada numa sólida base de procura, modernização produtiva e posicionamento internacional. Qualidade, diferenciação e crescimento nos segmentos de maior valor de mercado A segunda grande dinâmica que define a evolução recente do setor é o aumento sustentado do valor médio por tonelada exportada. Este fenómeno deve- -se, em parte, à relativa escassez provocada por produções mais baixas em certas campanhas, mas também a uma transformação mais profunda da procura internacional. O mercado internacional não só compra maioritariamente a categoria de azeite virgem extra (AVE), um autêntico sumo de fruta que nada tem a ver com outros óleos vegetais, mas também exige maior qualidade, diferenciação e os atributos intangíveis associados ao produto. Em resultado, a revalorização do AVE reforçou o seu posicionamento como produto de alto valor acrescentado no comércio agroalimentar global. Neste contexto, o crescente interesse por hábitos de vida saudáveis desempenha um papel determinante. A consolidação da dieta mediterrânica como modelo alimentar de referência internacional, associada a benefícios cardiovasculares e a um elevado teor de antioxidantes, reforçou a perceção do AVE como um alimento não só delicioso, mas também funcional e preventivo. Esta dimensão saudável fomenta o consumo e favorece simultaneamente a criação de valor e a obtenção de preços mais elevados em comparação com outros óleos vegetais. Paralelamente, observa-se uma clara evolução no sentido de produtos com maior valor acrescentado. Os consumidores demonstram um interesse crescente por produtos premium, biológicos e com certificação de origem, o que favorece estratégias de diferenciação baseadas na qualidade, na autenticidade e na ligação ao território. As denominações de origem e os selos de qualidade tornaram-se instrumentos fundamentais para gerar confiança, proporcionar transparência e justificar um posicionamento em segmentos de preço mais elevados. A isto junta-se a diversificação de usos do azeite para além do âmbito estritamente culinário. A sua incorporação na indústria cosmética e farmacêutica, graças às suas propriedades hidratantes e antioxidantes, amplia as oportunidades de negócio e consolida a imagem como produto versátil e de elevado valor funcional. Esta diversificação contribui também para reduzir a dependência exclusiva do consumo alimentar. Por fim, a sensibilidade crescente em relação à rastreabilidade, à sustentabilidade e às alterações climáticas influencia cada vez mais as decisões de compra, especialmente entre os jovens. Os consumidores exigem informação transparente sobre a origem do produto, os métodos de cultivo e extração, e o impacto ambiental da produção. Mais uma vez, o azeite está numa posição privilegiada. O olival é uma verdadeira floresta mediterrânica domesticada que contribui para a conservação do solo, abriga biodiversidade e captura CO₂ da atmosfera, promovendo um balanço de carbono positivo de mais de 10 kg de CO₂ por litro de azeite produzido. Esta tendência tem incentivado práticas mais responsáveis e sustentáveis ao longo de toda a cadeia de valor, reforçando a reputação do setor e consolidando vantagens competitivas baseadas na sustentabilidade. Em conjunto, estes fatores explicam por que razão o azeite virgem extra deixou de competir apenas em termos de volume para passar a competir cada vez mais em termos de valor. O seu posicionamento estratéOs consumidores demonstram um interesse crescente por produtos premium, biológicos e com certificação de origem…

18 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite gico no comércio agroalimentar global assenta hoje na qualidade diferenciada, na inovação, na sustentabilidade e na crescente disposição do consumidor para reconhecer e pagar por estes atributos. Globalização da procura e expansão para novos mercados de consumo A terceira grande dinâmica que caracteriza o atual panorama do setor é a expansão progressiva para mercados não tradicionais, especialmente na Ásia e na América. Embora o consumo per capita continue a ser elevado nos países mediterrânicos, o preço elevado do produto, juntamente com mudanças no estilo de vida, tais como o aumento das refeições fora de casa e a expansão da procura por fast food, está a alterar os padrões tradicionais de consumo nestes mercados. Neste contexto, o dinamismo recente da procura provém sobretudo de economias não tradicionais. Em conjunto, sete grandes mercados (Estados Unidos, União Europeia, Brasil, Japão, Canadá, China e Austrália) concentram cerca de 70% das importações mundiais, ultrapassando as 880 000 toneladas na campanha de 2024/25, o que põe em evidência tanto o peso crescente dos destinos extra-mediterrânicos como a influência das transformações no consumo global na configuração do comércio internacional. Os Estados Unidos mantêm-se como o primeiro importador mundial, absorvendo aproximadamente 37% do total global, consolidando-se como um mercado estratégico para os principais países exportadores. No entanto, apesar da sua relevância em volume, o consumo per capita continua a ser moderado: cerca de 1,1 kg por habitante. No Japão e no Brasil, esse consumo mal atinge os 0,4 kg por pessoa, enquanto no Canadá se situa em cerca de 1,2 kg. O caso da China é especialmente ilustrativo: com mais de 1,4 mil milhões de habitantes, o consumo estimado ronda as 53 000 toneladas, um valor ainda reduzido em termos relativos. Estes indicadores mostram que, por enquanto, apenas as classes mais abastadas têm acesso ao azeite, mas também evidenciam uma ampla margem de crescimento potencial se se consolidarem os hábitos alimentares ligados à dieta mediterrânica e se reforçar a educação do consumidor. No entanto, esta expansão internacional não se fez sem dificuldades. Nos últimos anos, o setor tem enfrentado tensões tarifárias e a imposição de barreiras regulamentares, particularmente no mercado norte-americano, um dos principais destinos fora da União Europeia. Estas circunstâncias obrigaram os exportadores europeus a repensar as suas estratégias comerciais, intensificando a diversificação de destinos e reforçando o seu posicionamento competitivo em mercados emergentes. … o dinamismo recente da procura provém sobretudo de economias não tradicionais. Figura 2 – Distribuição global das importações de azeite Fonte: COI 2026 Figura 3 – Consumo de azeite em kg por habitante e ano Fonte: COI 2026

Evolução do consumo mundial de azeite: tendências e desafios 19 A abertura e consolidação de novos destinos na Ásia, América Latina e Médio Oriente tornou-se, assim, uma estratégia fundamental para mitigar riscos, equilibrar a exposição comercial e sustentar o crescimento num contexto internacional caracterizado pela incerteza geopolítica, pela volatilidade dos preços e pelas transformações nos padrões de consumo. O setor oleícola perante um cenário de maior complexidade e regulamentação No futuro, o setor do azeite vai ter de enfrentar desafios importantes a nível mundial para manter o seu crescimento e o seu posicionamento no comércio agroalimentar internacional. O primeiro desafio é produzir mais de forma sustentada e sustentável. O azeite faz parte do desafio global de alimentar uma população em crescimento de forma saudável e sustentável e, para isso, é necessário enfrentar as consequências das alterações climáticas. Temos de compreender melhor a relação do olival com um ambiente em mudança e promover a sua adaptação. A mobilização dos recursos genéticos, a cooperação científica internacional, a colaboração público-privada, a diversificação das regiões de produção e a modernização das técnicas de cultivo constituem a base da nossa força para consolidar a tendência crescente da produção, procurando conter as oscilações entre campanhas. A elevada concorrência global continuará a ser um dos principais desafios, num mercado em que coexistem grandes países produtores tradicionais com novos atores emergentes de outros continentes. Neste contexto, a diferenciação baseada na qualidade, na reputação da marca e no valor acrescentado será cada vez mais determinante para competir nos principais mercados importadores. Além disso, as barreiras comerciais e regulamentares continuarão a representar um obstáculo significativo à expansão do comércio internacional. Os direitos aduaneiros, as normas sanitárias e fitossanitárias, bem como os requisitos de rotulagem e certificação de qualidade, podem limitar o acesso a determinados mercados. Neste sentido, a harmonização internacional de normas de qualidade e a cooperação entre organismos reguladores serão fundamentais para facilitar os fluxos comerciais e garantir a transparência do mercado global. Outro desafio fundamental está ligado à eficiência logística e à resiliência das cadeias de abastecimento internacionais. A redução dos custos de transporte, a melhoria das infraestruturas comerciais e a otimização dos tempos de distribuição serão fatores essenciais para manter a competitividade do produto num mercado cada vez mais globalizado e exigente. Da mesma forma, a promoção internacional e a educação do consumidor assumirão uma importância crescente. A capacidade do setor para comunicar os atributos saudáveis, sustentáveis e culturais do azeite será determinante para reforçar o seu posicionamento face a outros óleos vegetais. Aproveitar o mundo digital para divulgar os benefícios do consumo de azeite contribuirá para expandir o seu reconhecimento global. Finalmente, devemos ter em conta a cadeia de valor: a evolução das tendências de consumo continuará a marcar o desenvolvimento do setor. O aumento da procura de produtos saudáveis, sustentáveis e com rastreabilidade certificada obrigará a indústria a adaptar-se continuamente às novas preferências do consumidor mundial. A inovação produtiva, a sustentabilidade ambiental e a transparência na cadeia de valor consolidar-se-ão como pilares fundamentais para garantir a competitividade futura do azeite no cenário internacional. O primeiro desafio é produzir mais de forma sustentada e sustentável. Outro desafio fundamental está ligado à eficiência logística e à resiliência das cadeias de abastecimento internacionais … a evolução das tendências de consumo continuará a marcar o desenvolvimento do setor.

20 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite Conclusão: transformação estrutural e perspetivas do mercado global do azeite Em conclusão, o mercado mundial do azeite encontra-se num processo de transformação estrutural caracterizado pelo crescimento sustentado da procura, pela modernização da produção e pela crescente internacionalização do consumo. Apesar da volatilidade dos preços e da forte exposição a fatores climáticos, o setor tem demonstrado uma notável capacidade de adaptação através da inovação tecnológica, da diversificação geográfica dos mercados e da valorização do produto em segmentos de maior valor acrescentado. As três grandes dinâmicas analisadas (volatilidade do mercado, valorização do produto e expansão para mercados não tradicionais) mostram que o azeite deixou de ser apenas um produto agrícola tradicional para se consolidar como um produto cada vez mais valorizado no comércio agroalimentar global. A crescente preferência por produtos saudáveis, sustentáveis e com certificações de qualidade reforçou o seu posicionamento internacional, enquanto a abertura a novos mercados, não só nos EUA, mas também na Ásia e na América Latina, abre oportunidades significativas de crescimento futuro. No entanto, o desenvolvimento do setor dependerá da sua capacidade de enfrentar os desafios globais, entre os quais se destacam a resposta às alterações climáticas, a concorrência internacional, as barreiras comerciais, a eficiência logística e a necessidade de manter estratégias eficazes de promoção e diferenciação. Os aspetos relacionados com a saúde e a sustentabilidade ambiental, a rastreabilidade e a inovação continuarão a ser elementos-chave para responder às exigências de um consumidor cada vez mais informado e exigente. Assim, o futuro do azeite, embora apresente boas perspetivas, está estreitamente ligado à sua capacidade de combinar tradição e inovação, mantendo a sua identidade cultural e gastronómica enquanto se adapta a um contexto económico e comercial cada vez mais complexo, dinâmico e globalizado.

Evolução do consumo mundial de azeite: tendências e desafios 21 Evolución del consumo mundial de aceite de oliva: tendencias y desafíos JAIME LILLO Y JULIA ÁLVAREZ Consejo Oleícola Internacional (COI) El aceite de oliva no es solo un producto emblemático de nuestra gastronomía con profundas raíces en la cultura y tradición de la cuenca mediterránea sino también un producto cada vez más reconocido por los consumidores de todo el mundo. Más allá de su dimensión cultural y gastronómica, el aceite de oliva se ha consolidado como un producto con una relevancia creciente en el comercio agroalimentario global, sujeto a tensiones y oportunidades propias de un mercado cada vez más interconectado. Su evolución actual responde a tres grandes tendencias interrelacionadas: la volatilidad de los precios, provocada por factores climáticos y productivos; el aumento del valor del producto, impulsado por la preferencia por aceites de mayor calidad y valor añadido; y la expansión hacia nuevos mercados, que está cambiando el patrón mundial de consumo y generando nuevas oportunidades de crecimiento a medio y largo plazo. Un mercado volátil en un contexto de crecimiento estructural La primera gran tendencia que define la evolución reciente del sector del aceite de oliva es la creciente volatilidad del mercado. Este fenómeno está estrechamente vinculado a factores climáticos adversos, como sequías prolongadas, temperaturas extremas y reducciones significativas de cosecha en los principales países productores. Tales oscilaciones se han visto acentuadas en los últimos años como consecuencia del impacto del cambio climático en la cuenca mediterránea. Por consiguiente, se ha generado una mayor incertidumbre tanto para productores como para consumidores, alterando las expectativas de oferta y tensionando los precios. No obstante, este entorno inestable también ha impulsado estrategias más sofisticadas de planificación, diversificación y gestión del riesgo dentro del sector, reforzando su profesionalización. Este desafío se inscribe en una tendencia estructural claramente expansiva. En las tres últimas décadas, tanto la producción como el consumo mundial de aceite de oliva casi se han triplicado, reflejando la consolidación progresiva del producto en el mercado agroalimentario internacional. La producción ha pasado de 1.453.000 toneladas en la campaña 1990/91 a 3.572.000 en 2024/25, mientras que el consumo mundial ha aumentado desde 1.666.500 hasta 3.215.000 toneladas en el mismo periodo. La campaña 2021/22 marcó un hito histórico, con 3.414.500 toneladas de producción y 3.328.000 de consumo, confirmando una dinámica de crecimiento sostenido que trasciende las fluctuaciones puntuales de cada campaña. Conviene recordar que el consumo mundial de aceite de oliva se sitúa en torno al 2% del consumo global de aceites vegetales, por lo que hay espacio para seguir creciendo. Figura 1 – Evolución de la producción y el consumo de aceite de oliva (1990-2026) Datos en 10^3 t. Fuente: COI 2026

22 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite Desde una perspectiva histórica, este avance ha estado acompañado de una profunda transformación estructural del olivar. A comienzos de la década de 1980, la superficie mundial se situaba en torno a los 7,5 millones de hectáreas, mayoritariamente en régimen de secano y concentrada en los países mediterráneos. En la actualidad, el cultivo se aproxima a los 11,5 millones de hectáreas distribuidas en los cinco continentes. Esta expansión no solo responde al aumento de la demanda internacional, sino también a la adopción de nuevos modelos productivos, incluidos sistemas intensivos y superintensivos y a un proceso de modernización tecnológica sin precedentes. La mecanización de la recolección, la digitalización del riego, la mejora genética varietal y la innovación en las almazaras han transformado un cultivo tradicional en una actividad altamente tecnificada, eficiente y orientada a la calidad diferenciada. Sin perjuicio de esta evolución positiva, la producción continúa concentrándose principalmente en la cuenca mediterránea, con un liderazgo destacado de España como primer productor mundial, acompañada por Italia, Grecia, Portugal, Turquía y Túnez, que desempeñan un papel clave en la oferta global. Esta sólida base estructural no elimina uno de los principales retos del sector: su elevada exposición a los factores climáticos. Las condiciones adversas registradas recientemente provocaron una contracción significativa de la producción mundial, que pasó de 3,41 millones de toneladas en 2021/22 a 2,76 millones en 2022/23, lo que representa una caída cercana al 22 %. Esta reducción alteró de forma inmediata el equilibrio del mercado y desencadenó fuertes tensiones en los precios. Hay que señalar que nunca se había registrado una disminución de la producción mundial de aceite de oliva en dos campañas consecutivas, tal y como hemos observado en las campañas 2022/23 y 2023/24. En paralelo, el consumo mundial tampoco evolucionó de manera uniforme. Por una parte, como consecuencia de la pandemia del COVID, observamos un mayor interés del consumidor por cuidar su salud y un incremento del consumo mundial de aceite de oliva, principalmente en los mercados no tradicionales. Por otra, tuvo que adaptarse a la caída de la producción de aceite y durante las campañas 2022/23, el consumo estimado descendió por debajo de los 3 millones de toneladas. La menor disponibilidad de producto elevó los precios hasta niveles históricamente altos y generó una respuesta moderadora de la demanda, especialmente en aquellos mercados más sensibles al precio y donde el aceite de oliva constituye un producto tradicional de consumo diario. Con todo, la recuperación productiva iniciada en 2024/25, con un volumen incluso superior a los 3,5 millones de toneladas y una relativa moderación de los precios, ha impulsado nuevamente el consumo por encima de los 3,2 millones de toneladas, con perspectivas de consolidación en 2025/26. Así, aunque la volatilidad coyuntural sigue siendo un desafío relevante, la tendencia estructural del sector continúa siendo expansiva, sustentada en fundamentos sólidos de demanda, modernización productiva y posicionamiento internacional. Calidad, diferenciación y crecimiento en los segmentos de mayor valor del mercado La segunda gran dinámica que define la evolución reciente del sector es el incremento sostenido del valor medio por tonelada exportada. Este fenómeno responde, en parte, a la escasez relativa provocada por menores producciones en determinadas campañas, pero también a una transformación más profunda de la demanda internacional. El mercado internacional no solo compra mayoritariamente la categoría aceite de oliva virgen extra (AOVE), un auténtico zumo de fruta que nada tiene que ver con otros aceites vegetales, sino que además exige mayor calidad, diferenciación y atributos intangibles asociados al producto. Como resultado, la revalorización del AOVE ha reforzado su posicionamiento como bien de alto valor añadido dentro del comercio agroalimentario global. En este contexto, el creciente interés por los hábitos de vida saludables desempeña un papel determinante. La consolidación de la dieta mediterránea como modelo alimentario de referencia internacional, asociada a beneficios cardiovasculares y a un elevado contenido en antioxidantes, ha fortalecido la percepción del AOVE como un alimento no sólo delicioso, sino también funcional y preventivo. Esta dimensión saludable no solo impulsa el consumo, sino que favorece la creación de valor y unos precios superiores en comparación con otros aceites vegetales. Paralelamente, se observa una evolución clara hacia productos de mayor valor añadido. Los consumidores muestran un interés creciente por referencias premium, ecológicas y con certificación de origen, lo que favorece estrategias de diferenciación basadas en la calidad, la autenticidad y el vínculo territorial. Las denominaciones de origen y los sellos de calidad se han convertido en instrumentos clave para generar confianza, aportar transparencia y justificar un posicionamiento en segmentos de precio más elevados. A ello se suma la diversificación de usos del aceite de oliva más allá del ámbito estrictamente culinario. Su incorporación a la industria cosmética y farmacéutica, gracias a sus

Evolução do consumo mundial de azeite: tendências e desafios 23 propiedades hidratantes y antioxidantes, amplía las oportunidades de negocio y consolida su imagen como producto versátil y de alto valor funcional. Esta diversificación contribuye, además, a reducir la dependencia exclusiva del consumo alimentario. Finalmente, la creciente sensibilidad hacia la trazabilidad, la sostenibilidad y el cambio climático influye cada vez más en las decisiones de compra, particularmente en los jóvenes. Los consumidores demandan información transparente sobre el origen del producto, los métodos de cultivo y extracción, y el impacto ambiental de la producción. De nuevo encontramos los aceites de oliva en una situación privilegiada. El olivar es un auténtico bosque mediterráneo domesticado que contribuye a conservar el suelo, albergar biodiversidad y captura Co2 de la atmósfera propiciando un balance de carbono positivo de más de 10 kg de Co2 por litro de aceite de oliva producido. Esta tendencia, ha incentivado prácticas más responsables y sostenibles a lo largo de toda la cadena de valor, reforzando la reputación del sector y consolidando ventajas competitivas basadas en la sostenibilidad. En conjunto, estos factores explican por qué el AOVE ha dejado de competir únicamente en términos de volumen para hacerlo cada vez más en términos de valor. Su posicionamiento estratégico dentro del comercio agroalimentario global se sustenta hoy en la calidad diferenciada, la innovación, la sostenibilidad y la creciente disposición del consumidor a reconocer y pagar por estos atributos. Globalización de la demanda y expansión hacia nuevos mercados de consumo La tercera gran dinámica que configura el escenario actual del sector es la expansión progresiva hacia mercados no tradicionales, especialmente en Asia y América. Si bien el consumo per cápita continúa siendo elevado en los países mediterráneos, el elevado precio del producto, junto con los cambios en los estilos de vida, como el incremento de las comidas fuera del hogar y la expansión de la demanda de comida rápida, está modificando los patrones tradicionales de consumo en estos mercados. En este contexto, el dinamismo reciente de la demanda procede principalmente de economías no tradicionales. En conjunto, siete grandes mercados (Estados Unidos, Unión Europea, Brasil, Japón, Canadá, China y Australia) concentran cerca del 70 % de las importaciones mundiales, superando las 880.000 toneladas en la campaña 2024/25, lo que pone de manifiesto tanto el peso creciente de los destinos extra mediterráneos como la influencia de las transformaciones en el consumo global en la configuración del comercio internacional. Estados Unidos se mantiene como el primer importador mundial, absorbiendo aproximadamente el 37 % del total global, lo que lo consolida como mercado estratégico para los principales países exportadores. Sin embargo, pese a su relevancia en volumen, el consumo per cápita sigue siendo moderado: en torno a 1,1 kg por habitante. En Japón y Brasil apenas alcanza los 0,4 kg por persona, mientras que en Canadá se sitúa alrededor de 1,2 kg. El caso de China resulta especialmente ilustrativo: con más de 1.400 millones de habitantes, su consumo estimado ronda las 53.000 toneladas, una cifra todavía reducida en términos relativos. Estos indicadores muestran que, por el momento, sólo las clases más pudientes pueden acceder al aceite de oliva pero también evidencian un amplio margen de crecimiento potencial si se consolidan los hábitos alimentarios vinculados a la dieta mediterránea y se refuerza la educación del consumidor. No obstante, esta expansión internacional no ha estado exenta de dificultades. En los últimos años, el sector ha Figura 2 – Distribución global de importaciones de aceite de oliva Fuente: COI 2026 Figura 3 – Consumo de aceite de oliva en Kg por habitante y año Fonte: COI 2026

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