76 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite é que seja um caminho percorrido por toda a região pelas cooperativas, pelos pequenos produtores, pelas novas gerações que ainda podem encontrar neste território e nestas oliveiras centenárias um projeto de futuro com sentido. Trás-os-Montes tem as oliveiras. Tem as variedades únicas. Tem o saber acumulado. Tem a qualidade demonstrada. O que precisa agora é que o mundo saiba isso com clareza e que esteja disposto a pagar o que essa raridade verdadeiramente vale. Nuno Santos Casa do Azeite3 Nuno Santos é licenciado em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa e pela Harvard Business School. É presidente da Fedolive − Federação da Indústria de Azeite da União Europeia e, desde maio de 2023, da Casa do Azeite − Associação do Azeite de Portugal, que tem “40 empresas associadas representando, no seu conjunto, cerca de 85% de todo o azeite de marca embalado em Portugal”. É também CCO (Chief Commercial Officer – diretor comercial) da Sovena, uma das empresas líderes mundiais no setor do azeite, detentora do maior olival do país. A Sovena teve origem em Portugal, há mais de 100 anos, mas tem atualmente uma forte componente internacional. O ano em que se assinalam os 50 anos da Casa do Azeite – Associação do Azeite de Portugal constitui uma oportunidade privilegiada para realizar um balanço da evolução do setor ao longo deste meio século e, simultaneamente, refletir sobre o futuro, identificando os principais desafios e oportunidades que se colocam à fileira do azeite nacional. Ao longo das últimas cinco décadas, o setor do azeite em Portugal passou de um cenário de grande fragilidade estrutural para uma posição de crescente relevância no contexto internacional. Nas décadas de 1970 e 1980, predominava um modelo produtivo 3 https://www.casadoazeite.pt/pt tradicional, marcado por baixos níveis de produtividade, elevada dependência de mão de obra e um acentuado abandono das zonas rurais. A produção era irregular e insuficiente, espelhando a ausência de modernização e a reduzida competitividade do setor. A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1986, marcou o início de uma nova fase. Com o apoio da Política Agrícola Comum, começaram a surgir incentivos à modernização e reestruturação das explorações agrícolas e das empresas do setor, ainda que de forma gradual. Durante a década de 1990, persistiram limitações estruturais relevantes, como a predominância de explorações de pequena dimensão e o envelhecimento generalizado do olival. No domínio do consumo, importa destacar o programa comunitário de ajuda ao consumo, cogerido pela Casa do Azeite e pelo Estado Português, que teve um impacto significativo no aumento do consumo de azeite embalado. Ao reduzir a diferença de preço face a outras gorduras líquidas e ao contribuir para a organização do setor e controlo das vendas a granel, este programa ajudou a elevar o consumo per capita de cerca de 4,5 kg para aproximadamente 6,5 kg. A transformação mais profunda do setor ocorreu, contudo, a partir do início do século XXI, com a concretização do projeto do Alqueva. A expansão do regadio no Alentejo, aliada a uma estrutura fundiária de grande dimensão, permitiu investimentos significativos em olivais em copa e em sebe, altamente mecanizados e com níveis de produtividade muito elevados. Nas últimas duas décadas, Portugal consolidou a sua posição como produtor relevante a nível mundial, com um crescimento expressivo das exportações e uma afirmação clara da qualidade do azeite nacional. Hoje, o setor caracteriza-se por um elevado dinamismo, forte competitividade e adoção de tecnologias de última geração, posicionando-se entre os mais modernos a nível global. Desafios Apesar deste contexto favorável, subsistem desafios importantes, tanto do lado da produção como do consumo. Do lado da oferta, destacam-se questões trans-
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