Cultivar_35_Olival_Azeite

120 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite lamparinas em contextos domésticos e religiosos, evidenciando a sua relevância no quotidiano das sociedades mediterrânicas ao longo de diferentes períodos históricos (Flandrin & Montanari, 1998). Foi apenas no início da Época Moderna (séculos XV a XVIII) que a manteiga passou a ser valorizada como produto de prestígio e associada às classes mais favorecidas (Flandrin & Montanari, 2001; Montanari, 2015). Na Europa, mas sobretudo nos países setentrionais, o consumo de manteiga parece estar igualmente associado ao recuo da influência da Igreja romana sobre as práticas alimentares, um processo que começa a desenhar-se no século XVI e se torna mais evidente nos séculos XVII e XVIII. Em contraste, nos países do Sul, onde a Igreja manteve maior autoridade normativa, a presença do azeite tornou-se ainda mais expressiva do que na Idade Média (Flandrin & Montanari, 2001). A Época Contemporânea (séculos XIX e XX) trouxe transformações profundas na história da alimentação. A Revolução Industrial impulsionou o desenvolvimento das indústrias alimentares, alterando significativamente os modos de produção, conservação e consumo. Paralelamente, fenómenos como o crescimento demográfico, o êxodo rural e o desenvolvimento dos transportes e do comércio mundial contribuíram para a diversificação alimentar. Entre os produtos introduzidos, destacam-se as oleaginosas tropicais, sendo o óleo de amendoim um forte concorrente do azeite e de outros óleos tradicionalmente consumidos na Europa. Simultaneamente, a difusão de óleos vegetais e margarinas contribuiu para o declínio do consumo de manteiga e de outras gorduras animais (Flandrin & Montanari, 2001). Apesar do aumento global da disponibilidade alimentar ao longo do século XIX, a primeira metade do século XX foi marcada por conflitos bélicos que tiveram impactos profundos nas estruturas sociais e alimentares europeias, cuja análise detalhada excede o âmbito desta abordagem. Neste enquadramento histórico, a construção daquilo a que hoje se designa por Dieta Mediterrânica resulta de um processo gradual, com raízes na Antiguidade. Este padrão alimentar desenvolveu-se entre populações da bacia do Mediterrâneo, onde oliveiras e vinhas cresciam espontaneamente e o azeite assumia o papel de principal fonte de gordura. A sua matriz inicial caracterizava-se pela frugalidade e, como vimos, pela tríade pão, azeite e vinho, complementada por leguminosas e produtos lácteos de ovelha e cabra. O consumo de carne era reduzido e geralmente associado a ocasiões festivas ou rituais. Ao longo dos séculos, este padrão foi sendo progressivamente enriquecido e transformado, acompanhando os contextos históricos e as trocas culturais (Capurso, 2024). A Dieta Mediterrânica, tal como hoje é entendida, resulta da identificação científica de padrões alimentares e estilos de vida tradicionais das populações mediterrânicas, desenvolvidos ao longo de séculos de interações culturais, agrícolas e sociais (Real & Graça, 2019). A sua designação surge na década de 1950, no contexto dos trabalhos de Ancel Keys, cujo Seven Countries Study (Estudo dos Sete Países) evidenciou a associação entre estes padrões alimentares, particularmente no Sul da Europa, e uma menor incidência de doenças cardiovasculares. Este modelo caracteriza-se pelo predomínio de alimentos de origem vegetal, pelo uso do azeite como principal gordura de adição, pelo consumo moderado de peixe, vinho e produtos de origem animal, bem como pela valorização da sazonalidade, diversidade e frugalidade alimentar (Keys, 1980; Real & Graça, 2019). Para além da dimensão nutricional, a Dieta Mediterrânica integra componentes culturais, sociais e ambientais, sendo reconhecida como um verdadeiro estilo de vida. Inclui práticas como a convivialidade à mesa, a atividade física regular e o respeito pelos ritmos naturais e pelos produtos locais. Esta abordagem multidimensional foi formalmente reconhecida em 2010, com a inscrição da Dieta Mediterrânica na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, distinção que Portugal passou a integrar em 2013, tendo Tavira sido designada como comunidade representativa nacional (Reguant-Aleix et al., 2009; Real & Graça, 2019). Portugal apresenta características mediterrânicas, não apenas pela sua história e pelas suas práticas

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