Cultivar_35_Olival_Azeite

74 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 35 Olival e azeite e conhecimento acumulado ao longo de gerações. Não é um campo de produção industrial, é um território habitado, com história e com alma. Dois modelos, duas lógicas, um país A olivicultura portuguesa é hoje marcada por uma grande diversidade de modelos produtivos, e isso é uma riqueza que devemos saber ler corretamente. O crescimento expressivo do olival de regadio intensivo no sul do país, com culturas em sebe de alta densidade, mecanização avançada e elevada produtividade por hectare, foi um salto modernizador que colocou Portugal no mapa dos grandes produtores mundiais, tornando-nos o quinto maior produtor global e o terceiro maior exportador europeu. Este crescimento merece reconhecimento. Mas é importante que o mercado e as políticas públicas reconheçam igualmente a realidade e os custos do modelo transmontano. A orografia acidentada, o solo pobre e pedregoso, a estrutura fundiária de pequena e média dimensão, a ausência de regadio em grande escala e a dependência de uma colheita com maior componente manual fazem com que o custo de produção de um litro de azeite em Trás-os- -Montes seja estruturalmente mais elevado. Não é uma ineficiência, é o preço de preservar um modelo que tem um valor ambiental, cultural e territorial insubstituível. O desafio está em garantir que esse valor seja adequadamente remunerado pelo mercado e reconhecido pelas políticas de apoio ao setor. A qualidade que esta região produz e que merece ser dita em voz alta Apesar de todos os constrangimentos estruturais, Trás-os-Montes produz regularmente azeites de quaDesafios, oportunidades e rumo estratégico da fileira do azeite Falo deste tema com os pés assentes na terra, literalmente. Falo de Trás-os-Montes. De um território que durante séculos cultivou a oliveira não como negócio, mas como parte intrínseca da sua identidade, da sua paisagem e da sua forma de estar no mundo. Foi precisamente esse território, essa luz e esse solo que me trouxeram até aqui e que estão na origem da Acushla. Há mais de 20 anos, após um processo longo e exigente de estudo das regiões com maior potencial olivícola em Portugal, encontrei em Lodões, no coração de Vila Flor, o lugar certo para produzir um azeite de excelência. A Quinta do Prado, com os seus cerca de 300 hectares, com 215 hectares de novos olivais e os seus 14 hectares de olival centenário, tornou-se o projeto da minha vida. Com mais de 100 galardões internacionais, em concursos no Japão, China, EUA, Suíça, Reino Unido, Itália, Espanha, Israel, Argentina e outros países, posso dizer que a aposta valeu a pena. Mas seria desonesto da minha parte ficar pela celebração, porque os desafios que esta fileira enfrenta são reais, profundos e urgentes. Um território com uma identidade olivícola sem igual Trás-os-Montes não é apenas uma região produtora de azeite. É um ecossistema olivícola único, moldado por séculos de coexistência entre o ser humano e a oliveira. As variedades autóctones desta região – a cobrançosa, a madural, a verdeal e a cordovil – não existem com a mesma expressão, concentração e pureza genética em mais nenhum lugar do mundo. São variedades que sobreviveram ao tempo, que se adaptaram ao clima rigoroso do interior nordeste, que produziram azeite quando não havia tecnologia nenhuma para as ajudar. São, em si mesmas, um património vivo. O olival transmontano tradicional é também uma paisagem. Oliveiras centenárias de portes generosos, implantadas em socalcos e encostas que nenhuma máquina trabalha com facilidade. Um olival que exige presença humana, mão-de-obra qualificada

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