A Europa em três vértices: rumo a um novo (des)equilíbrio estratégico 61 ção do modelo europeu coloca desafios estruturais, uma vez que a centralização europeia politico-orçamental pode traduzir-se numa perda de influência e de margem estratégica. A deslocação do poder de agenda para o centro económico da União, combinada com instrumentos financeiros mais centralizados e com Auxílios de Estado assimétricos, favorece inevitavelmente as economias mais robustas. Em paralelo, a concentração territorial do investimento industrial pode desviar capital e inovação para Estados que já dispõem de ecossistemas produtivos maduros, limitando a capacidade de países como Portugal participarem plenamente nas novas cadeias de valor estratégicas. Há ainda um risco interno, que é o da erosão da coesão territorial e rural. A maior parte do território português depende, direta ou indiretamente, da PAC, do desenvolvimento rural e de políticas de coesão que, ao longo de décadas, compensaram desigualdades estruturais e contrariaram a desertificação humana. A narrativa tradicional segundo a qual Portugal possui vantagens estratégicas naturais, como a centralidade atlântica, economia do mar, portos, logística, energias renováveis, turismo, florestas, biorecursos, pode continuar a ser válida, mas é necessário que a Europa preserve o seu modelo de equilíbrio, que inclua regiões e territórios. Contudo, a ação ao nível institucional, por mais determinada que seja nas negociações em curso, não pode substituir a necessidade de uma resposta interna. Se a estratégia europeia em curso aponta para uma tendência de centralização e para uma provável redução da intensidade do apoio ao investimento público e privado em países periféricos, Portugal deve preparar- -se para esse novo ciclo. A defesa ativa e legítima das suas posições nos diferentes níveis negociais da UE continua a ser indispensável, mas já não é suficiente. Portugal terá, por isso, de iniciar uma reflexão estratégica sobre como potenciar a sua economia num quadro de crescente seletividade dos fundos europeus. E, neste âmbito, é fundamental potenciar o setor agroalimentar e as cadeias de valor assentes em recursos endógenos. O país necessita de conceber mecanismos internos criativos que reforcem a sua economia e os seus territórios, não deixando de articular com um financiamento europeu menos intenso, particularmente após um ciclo que contou, para além do QFP, com verbas avultadas do PRR. Isso implica uma nova geração de estratégias concertadas entre o tecido empresarial e o Estado, entre as regiões e a administração central, e entre os setores produtivos e as suas organizações representativas. Requer igualmente instrumentos inovadores de capitalização e de desenvolvimento empresarial que permitam consolidar estruturas produtivas, criar clusters sólidos, promover parcerias verticais e integrar melhor as cadeias de valor. Esta agenda deve incluir, nas suas prioridades estratégicas, uma abordagem específica para os setores baseados em recursos endógenos: a agricultura, a floresta, o mar, as bioindústrias e a transformação agroalimentar. São setores que combinam resiliência territorial com capacidade de criação de valor distribuído, gerando emprego, serviço (como é o caso do turismo), inovação e exportação ao longo de todo o país. Uma estratégia de capitalização adequada pode multiplicar estes efeitos, reforçando ligações entre produtores, indústria, serviços avançados e mercados externos (nos quais é de assinalar o potencial do Acordo UE-Mercosul). A deslocação do poder de agenda para o centro económico da União, combinada com instrumentos financeiros mais centralizados e com Auxílios de Estado assimétricos, favorece inevitavelmente as economias mais robustas. … a ação ao nível institucional, por mais determinada que seja nas negociações em curso, não pode substituir a necessidade de uma resposta interna … Portugal deve preparar-se para esse novo ciclo.
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