Perspetivas sobre dados e informação na agricultura 65 Penso que a partilha de dados das explorações agrícolas terá mais valor para a administração pública, de forma a produzir políticas mais adequadas, e para a investigação, de forma a melhor modelar, do que entre explorações agrícolas (embora se reconheça algum valor e utilidade no benchmarking). Para a administração pública e para a investigação parece-me uma grande oportunidade que encerra, contudo, enormes desafios. A forma de recolha de dados (nomeadamente a calibração de equipamentos), a variabilidade infinita de condições em que se geram dados, a interoperabilidade entre sistemas e a própria forma como cada pessoa individualmente carrega ou cede os seus dados têm, todas em conjunto, uma probabilidade significativa de gerarem dados com muito “ruído” (como se diz neste tipo de linguagem), que necessitam de um tratamento exaustivo para de facto poderem ter a fiabilidade necessária para serem utilizados seja pela investigação seja para suportar políticas públicas. Como agricultor, não posso deixar também de dar nota que, para além de os dados terem um valor em si, há também um custo considerável não só em obtê-los e arquivá-los, mas também em prepará-los para posterior envio/partilha. Nesta linha, e tendo em conta a hoje em dia unanimemente assumida excessiva carga administrada que recai sobre os agricultores, penso que a administração deve selecionar com maior cuidado exatamente os dados (e o formato dos mesmos) que são relevantes para a melhoria do seu trabalho/desempenho. Por exemplo, o Caderno de Campo atual exige o preenchimento de uma quantidade muito considerável de informação em que uma parte não despicienda não traz, à partida, nenhum valor acrescentado seja para o agricultor seja para a certificadora ou para a tutela. Há que ter consciência que, exatamente por esse motivo e pela complexidade de preenchimento, a grande maioria dos agricultores subcontrata a elaboração do Caderno de Campo o que, logicamente, retira rigor real à informação declarada. 4 – A digitalização da agricultura tem já um impacto económico positivo na produção? Vou responder que a digitalização tem já um papel incontornável, diário, numa exploração agrícola. Isto interpretando o termo “digitalização” como um processo que capta e transforma dados do mundo físico/real em dados legíveis e manipuláveis por computador. Estou a considerar como digitalização, por exemplo, as estações meteorológicas que medem as condições atmosféricas e as comunicam e arquivam automaticamente num software que se consulta a todo o instante (antigamente, tínhamos os copos de precipitação que exigiam que as pessoas fizessem a medição e a registassem à mão). Nesta linha, hoje em dia, todas as máquinas agrícolas vêm equipadas com inúmeros sensores internos que auxiliam a tarefa do operador. Temos também os pivots equipados com sistemas de controlo à distância. Tenho, contudo, dificuldade em mensurar o real impacto económico. Na nossa exploração, a mais- -valia está muito associada à diminuição do tempo despendido em determinadas tarefas e à possibilidade de possuir um arquivo histórico facilmente consultável e acessível que contribui para a tomada de decisões. Do ponto de vista mais concreto e diretamente ligado à produção, assumimos ainda uma posição cautelosa sobre o estado de desenvolvimento e fiabilidade dos
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