CULTIVAR 9 - Gastronomia

Paisagens alimentares e a (re)invenção da gastronomia em Portugal 43 cussão direta na crescente valorização destas realida- des. Nesse sentido, a gas- tronomia portuguesa não é apenas uma herança iden- titária do passado, mas uma variável-chave para o futuro do país e seus ter- ritórios. Um ponto de vira- gem com os riscos e poten- cialidades inerentes. Vimos que as paisagens alimentares podem retra- tar a evolução dos sistemas alimentares tradi- cionais, incluindo as interações sociais e a cul- tura culinária associadas. Vimos, também, que o entrelaçamento entre determinados sistemas ali- mentares e uma nova gastronomia (re)inventada pode favorecer várias componentes do bem-estar, incluindo a saúde. Isto é particularmente impor- tante quando se reconhecem as limitações decor- rentes da modernização dos sistemas alimentares verificada nas últimas décadas. Por essa razão, a valorização da identidade gastro- nómica portuguesa deve acompanhar-se de uma acrescida coerência entre os sistemas agrários tra- dicionais e as paisagens alimentares e sua preser- vação dinâmica. É por isso importante o (re)conhe- cimento do património imaterial desses sistemas, incluindo as suas identidades gastronómicas. Com isto, será possível definir não só estratégias e políti- cas para essa preservação dinâmica, mas também ações coerentes de marketing territorial envol- vendo maior coordenação e alinhamento dos fun- dos comunitários e nacionais disponíveis. A FAO já está a contribuir para isso. Para que esta estratégia se amplie será necessá- ria a conjugação de esforços e investimentos dos diversos níveis do poder executivo em Portugal, desde o Estado Central ao Poder Local, dos agen- tes privados envolvidos na indústria do turismo e dos diversos atores que compõem as comunida- des locais, desde as asso- ciações de produtores à população em geral. Aliás, novas modelos de partici- pação e governança a nível local serão importantes para procurar uma corre- lação de interesses a nível local que permita avançar na (re)conexão de sistemas agrários, sistemas alimentares e respetivas paisa- gens, valorizando e explorando, de forma equita- tiva e sustentável, este importante património ima- terial de Portugal. Bibliografia e fontes Alport, Susan. The Queen of Fats: why Omega 3 s were remo- ved from the western diet and what we can do to replace them , Berkeley University Press, 2006 Bauman, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade , Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997 Bell, D. and Valentine, G. Consuming Geographies: We are where we eat . Routledge, London, 1997 Bessière, J. “Local Development and Heritage: Traditional Food and Cuisine as Tourist Attractions in Rural Areas”. Sociologia Ruralis 38, Paris, 1998 Bessière, J. “The role of rural gastronomy in tourism”. In Roberts, L. and Hall, D. R. (Eds) Rural Tourism and Recreation: Principles to Practice , CABI, Wallingford, 2001 Baldwin, John R., Faulkner, Sandra L., Hecht, Michael L., Lind- sley, Sheryl L., Redefining Culture: Perspectives Across the Disciplines , Taylor & Francis e-library, 2008 Cândido, Guida, Cinco Séculos à Mesa , Editora Dom Quixote, Lisboa, 2016 Carvalheiro, Nelson, Viagens pela Receitas de Portugal , Caminho das Palavras, Évora, 2015 Dodd, D. Food and the Tourism Experience . OECD, Paris, 2012 Dufumier, Marc. Les projets de développement agricole – manuel d’expertise . Paris, CTA-Karthala, 1996 FAO. Agrarian systems diagnosis . FAO, Roma, 1999 —. Comunicação, diálogo e conciliação: DPTN – mais que um método, uma estratégia de integração e interação . Roma, FAO, 2007 —. Diagnóstico Territorial Participado e Negociado (DTPN) . Roma, FAO, 2005 … será necessária a conjugação de esforços e investimentos dos diversos níveis do poder executivo em Portugal, desde o Estado Central ao Poder Local, dos agentes privados envolvidos na indústria do turismo e dos diversos atores que compõem as comunidades locais, desde as associações de produtores à população em geral.

RkJQdWJsaXNoZXIy NDU0OTkw