Cultivar_33

Editorial 9 os transformar em decisões informadas, sustentáveis e economicamente viáveis, baseadas em fontes confiáveis e em conhecimento sólido e acessível a todos os atores do setor agrícola. Este número da Cultivar propõe-se, assim, pensar várias experiências, reflexões e programas na representação e utilização de dados, com particular atenção aos seus efeitos sobre o território, a produção agrícola e o as políticas públicas. Os artigos apresentados, de autores muito diversos, revelam uma certa confluência de opiniões: por um lado, a constatação óbvia da existência de uma quantidade crescente de dados, por outro lado, embora exista ainda alguma perplexidade quanto à melhor forma de os transformar em conhecimento útil, não faltam propostas, também elas confluentes, para o conseguir. O artigo de James Henderson, da Global Partnership for Sustainable Development Data, apresenta uma visão abrangente sobre a problemática dos dados em todo o mundo. Afirma que a digitalização está a transformar a agricultura, gerando dados abundantes através de tecnologias como satélites e sensores, entre outras. Contudo, muitos países, especialmente os de mais baixo rendimento, carecem ainda de dados essenciais e atualizados. O autor destaca que “a revolução digital criou a ilusão de uma abundância de dados e, simultaneamente, mascarou lacunas essenciais” e alerta para que a verdadeira oportunidade e o grande desafio residem em criar sistemas inclusivos que transformem dados em decisões úteis. Defende uma governação mais forte, estratégias nacionais e colaboração entre setores para garantir que os dados beneficiem todos os produtores e sustentem políticas agrícolas eficazes. Miguel Castro Neto, da NOVA IMS, reitera estas ideias, refletindo mais especificamente sobre a IA na agricultura. Constata que esta atravessa uma transformação digital profunda, impulsionada pela IA, especialmente a generativa, que permite decisões mais precisas, sustentáveis e personalizadas. Contudo, a adoção plena destas tecnologias enfrenta desafios como uma frágil governação de dados, escassez de competências ou dificuldades de conectividade no espaço rural. Para concretizar o potencial desta revolução, beneficiando simultaneamente agricultores e sociedade, é essencial investir em dados abertos, infraestruturas digitais, formação contínua e políticas públicas que garantam inclusão e partilha de valor. “Tal como a energia ou as estradas, os dados devem ser tratados como infraestruturas críticas”, afirma. Rui Pereira, do GPP, reforça que, num setor agrícola muito marcado pela incerteza e pela complexidade, os dados são cruciais para a tomada de decisões eficazes, constatando que “hoje, e cada vez mais, o mundo é dados e os dados são um mundo”. Sublinha que o agricultor é a origem do ciclo de conhecimento e que só com uma recolha estruturada e o aumento da literacia digital a todos os níveis será possível transformar dados em políticas úteis para todos. Apela à articulação, por um lado, entre dados estatísticos, administrativos, georreferenciados e individuais e, por outro lado, entre todos os intervenientes no processo de gestão e difusão desses dados, para robustecer um ecossistema digital agrícola mais integrado, sustentável e preparado para os desafios do futuro. A transição para uma agricultura de baixo carbono exige igualmente dados fiáveis e representativos. Gonçalo Vale, da AGRO.GES, destaca que “a disponibilização e utilização de dados atualizados e detalhados permitiria estimativas mais próximas da realidade”. O artigo sublinha que o setor agrícola é muitas vezes penalizado por metodologias desatuaDrone para monitorização vegetativa da cultura do milho, Quinta da Cholda – João José Andrade Coimbra, Herdeiros – Azinhaga, Golegã Fotografia de João Coimbra

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