7 Dados: fator de produção ou de decisão? Vivemos imersos em dados. À superfície, tudo parece transparente: as aplicações que usamos dizem-nos quantos passos demos, os governos publicam estatísticas e indicadores, e há agricultores que monitorizam as suas culturas a partir de satélites. Mas raramente nos perguntamos como chegámos aqui — ou que visão do mundo está implícita na forma como representamos a realidade através dos dados. Esta travessia começou muito antes do advento da Inteligência Artificial (IA). Na Antiguidade e na Idade Média, o conhecimento resultava da experiência sensível e da tradição simbólica. Aquilo a que hoje chamaríamos “dados” — as fases da lua, as características do solo, a disposição das estrelas — eram interpretados como fragmentos de uma ordem cósmica. A verdade não se media, reconhecia-se. Esses dados vinham da autoridade, da intuição, da herança cultural — e raramente da verificação empírica. Curiosamente, esta lógica reaparece, por vezes, no presente, sobretudo em visões idealizadas da agricultura, onde um certo bucolismo alimenta o fascínio por práticas baseadas na recoleção ou em sistemas produtivos de baixíssima interferência científica. O Renascimento rompeu com essa lógica. Com Galileu ou Descartes, a realidade passou a ser aquilo que podia ser medido, quantificado, controlado. Por sua vez, o Iluminismo e a ciência moderna instituíram a matemática como nova gramática do real, da verdade. Medir tornou-se conhecer. E assim nasceu a ambição de representar e classificar o invisível: o tempo com relógios, o calor com termómetros, os céus com os telescópios. Editorial EDUARDO DINIZ Diretor-geral do GPP Análise expedita de solos no campo – Posto experimental do Vale do Tejo, Salvaterra de Magos [s.d.; anon.] Acervo GPP
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