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CULTIVAR CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA N.29 | dezembro 2023 | Indústria agroalimentar

CULTIVAR Cadernos de Análise e Prospetiva

CULTIVAR Cadernos de análise e prospetiva® N.º 29 | dezembro de 2023 | Indústria agroalimentar Propriedade: Gabinete de Planeamento, Politicas e Administração Geral (GPP) Praça do Comércio, 1149-010 Lisboa Telefone: + 351 213 234 600 e-mail: geral@gpp.pt | website: www.gpp.pt Equipa editorial: Coordenação: Ana Sofia Sampaio, Bruno Dimas, Eduardo Diniz Ana Filipe Morais, Ana Rita Moura, António Cerca Miguel, João Paulo Marques, Mafalda Gaspar, Manuel Loureiro, Pedro Castro Rego, Rui Trindade e-mail: cultivar@gpp.pt Colaboraram neste número: Álvaro Mendonça, Alejandro Garrido, António Cunha, Francisco Guimarães, Jaime Braga, Jaime Piçarra, Lorenzo Pastrana, Mariam Debs, Martin Stilwell, Miguel Cerqueira, Nuno Fernandes Thomaz, Paulo Rosa, Pedro Mendonça, Pedro Pimentel, Pedro Queiroz, Sara M. Oliveira, Tiago Costa Edições anteriores: https://www.gpp.pt/index.php/publicacoes-gpp/cultivar-cadernos-de-analise-e-prospetiva Edição: Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) Execução gráfica e acabamento: Sersilito – Empresa Gráfica, Lda. Tiragem: 1 000 exemplares ISSN: 2183-5624 Depósito Legal: 394697/15

CULTIVAR Cadernos de Análise e Prospetiva N.º 29 dezembro de 2023 Indústria agroalimentar

Índice 7/10 | EDITORIAL SECÇÃO I – GRANDES TENDÊNCIAS 13/20 | O AGROALIMENTAR EM TRÊS TEMPOS – PASSADO, PRESENTE E FUTURO DA FILEIRA EM PORTUGAL Jaime Piçarrra 21/24 | INDÚSTRIA PORTUGUESA AGROALIMENTAR – DESAFIOS E PERSPETIVAS FUTURAS Pedro Queiroz 25/28 | A INDÚSTRIA AGROALIMENTAR − SUSTENTABILIDADE E DESAFIOS DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA Jaime Braga 29/38 | HARMONIZAR O IVA, PORQUE A ALIMENTAÇÃO É ESSENCIAL Nuno Fernandes Thomaz SECÇÃO II – OBSERVATÓRIO 41/65 | INDÚSTRIAS AGROALIMENTARES: CARACTERIZAÇÃO E EVOLUÇÃO RECENTE Ana Rita Moura e Rui Trindade 67/70 | A MISSÃO DA NANOCIÊNCIA E DA NANOTECNOLOGIA NA ALIMENTAÇÃO DO FUTURO Sara M. Oliveira, Mariam Debs, Francisco Guimarães, Alejandro Garrido, Miguel Cerqueira, Lorenzo Pastrana 71/75 | INDÚSTRIA DE CONSERVAS DE PEIXE EM PORTUGAL – UM SETOR DE FUTURO António Cunha

6 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar 77/82 | A CULTURA DE TOMATE PARA INDÚSTRIA EM PORTUGAL Martin Stilwell 83/86 | INDÚSTRIA AGROALIMENTAR – NOZES! Tiago Costa 87/94 | BREVE HISTORIAL DA FEDERAÇÃO DOS GRÉMIOS DA LAVOURA DO NORDESTE TRANSMONTANO Pedro Mendonça e Álvaro Mendonça 95/101 | EVOLUÇÃO DAS POLÍTICAS DE FOMENTO AGROINDUSTRIAL João Marques SECÇÃO III – LEITURAS 105/107 | OBSERVATÓRIO DE PREÇOS – AGROALIMENTAR Síntese sobre a nova plataforma Observatório de Preços da Cadeia de Valor Agroalimentar, por Ana Filipe Morais 108/110 | CRIAR MAIS VALOR NA VINHA E NO VINHO Recensão do livro com o mesmo nome, de José Ramalho Fontes e Fernando Bianchi de Aguiar (org.), 2023, por Pedro Castro Rego 111/118 | COMPLEXO AGROINDUSTRIAL – ANÁLISE DA INTERDEPENDÊNCIA Análise do Documento de trabalho com o mesmo nome, de Bruno Dimas, 1991, por Ana Rita Moura

7 A indústria agroalimentar desempenha um papel essencial na economia global, contribuindo para a segurança alimentar com o fornecimento de alimentos seguros e saudáveis às populações e criando valor a partir de matérias-primas agrícolas, que em grande parte, no caso de Portugal, são recursos endógenos. Nas economias mais desenvolvidas, tem vindo a ocorrer um processo de redução da importância do setor industrial na economia, ou mesmo uma desindustrialização, com reflexos no valor e criação de emprego e de “fragmentação” do processo produtivo e do valor acrescentado com impactos em regiões outrora especializadas neste setor de atividade. Esta evolução resulta de um conjunto de fatores diversificado, quer de natureza setorial, quer resultante de pressões externas. Por um lado, a introdução de tecnologias e os aumentos de produtividade reduzem a necessidade de emprego, por outro lado, a divisão do trabalho ocorre não só entre indústrias mas também dentro das indústrias – a produção de um bem pode ser assegurada a partir de várias origens internacionais. São ainda de destacar as vantagens concorrenciais dos países em desenvolvimento que aproveitam os seus menores custos do trabalho e a facilidade de aquisição de capital e tecnologia. Por outro lado ainda, surge uma oferta crescente de novos empregos nos serviços (com maior conteúdo tecnológico) exigindo mão de obra mais qualificada com uma maior valorização salarial. Ou seja, verifica- -se um percurso em alguns subsetores da indústria similar ao que ocorreu com a agricultura no século passado. No entanto, é de apontar que este processo não é totalmente segmentável, tendo em conta que existe uma cada vez maior integração dos serviços nas fases da produção primária e da transformação. Cada vez mais, devemos apontar para a existência de cadeias de valor ou sistemas e não tanto para setores que estão organizados de forma linear. Neste contexto, é de destacar a evolução positiva do valor acrescentado da indústria agroalimentar nacional, com uma tendência de crescimento superior à da economia e em contraste com o decrescimento da indústria transformadora, revelando uma grande capacidade de resistir aos choques exógenos, como a crise de 2008, de que recuperou rapidamente, e a resiliência face à pandemia de COVID-19. Também a manutenção da capacidade de gerar emprego é de assinalar, tendo-se verificado nos últimos 10 anos valores em torno dos 110 mil trabalhadores. Este papel é particularmente determinante no que toca ao autoabastecimento alimentar, às exportações Editorial EDUARDO DINIZ Diretor-geral do GPP

8 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar e às importações, podendo ser da maior relevância para o desenvolvimento do setor primário nacional, quer na agricultura, quer nas pescas. Existe um potencial, que pode ser ainda mais desenvolvido, que se refere ao investimento em unidades de transformação de diferentes dimensões, desde grandes unidades industriais, próximas de centros de logística, até unidades de pequena e média dimensão, ao longo de todo o território nacional. Os principais indicadores da indústria agroalimentar nacional demonstram um crescimento consistente e persistente no seu contributo para a economia nacional. Diríamos que, apesar da sua representatividade no emprego e nas exportações e de um crescimento acima do resto da economia, este é um “movimento silencioso”, tendo em conta que a economia baseada nos bens transacionáveis e com aposta nos mercados internacionais não merece tanta atenção como alguns temas emergentes. Contudo, verificamos que este ramo de atividade tem vindo a ser exposto e a dar resposta a desafios tão variados como a digitalização (e logística), a energia, a economia circular, a bioeconomia, as preocupações com a nutrição. Nas crises mais recentes, sobretudo durante a pandemia e o período de elevada inflação, o setor revelou, em conjunto com os setores a montante e a jusante, nomeadamente o setor agrícola, uma grande resiliência, mantendo a capacidade de assegurar o abastecimento alimentar. O grau de abertura das indústrias agroalimentares é muito elevado e com tendência de crescimento, evidenciando a exposição ao exterior e o carácter transacionável da produção agroalimentar. A orientação para o mercado externo tem igualmente vindo a aumentar, num processo de globalização que é generalizado. Os dados mais recentes divulgados no primeiro artigo do GPP no Observatório desta edição permitem verificar que as indústrias agroalimentares têm efetivamente uma forte inter-relação com o setor agrícola, por exemplo, através de uma grande integração vertical em alguns setores. Para além disso, há um peso significativo dos consumos intermédios em ambos os sentidos: a agricultura fornece 37% dos consumos intermédios das Indústrias Alimentares, das Bebidas e do Tabaco (IABT), e estas Indústrias fornecem 35% dos consumos intermédios da agricultura; 42% da produção nacional da agricultura é dirigida para as IABT. O setor agroindustrial é responsável por 6% das exportações nacionais de bens e serviços. Entre 2010 e 2022, as exportações do setor cresceram 7% ao ano, acima da economia, destacando-se o último triénio (17% ao ano entre 2020 e 2022, com o contributo da inflação). No mesmo período, as importações aumentaram 5% ao ano. As Grande Tendências abrem com um artigo de Jaime Piçarra em que o autor contextualiza o setor “em três tempos − passado, presente e futuro”. Começa por um breve historial das políticas agrícolas e agroindustriais a nível da União Europeia, desde os excedentes de produção às crescentes preocupações ecológicas, para perceber como chegámos aqui. Nos desafios e ameaças para o futuro, traça o quadro das contingências geopolíticas, bem como das próprias contradições internas das políticas europeias. Faz depois uma análise da situação do agroalimentar em Portugal, referindo que embora se tenha feito já um grande caminho, continuamos aquém das expectativas, mantendo problemas estruturais graves. Aborda ainda questões ligadas à alimentação humana e animal e à necessidade de fomentar a inovação. No artigo de Pedro Queiroz, da FIPA, fala-se da comprovada resiliência do setor num contexto adverso como aquele em que temos vivido e da necessidade de construir sistemas agroalimentares cada vez mais sustentáveis nas três vertentes ambiental, económica e social. O autor refere a questão central das embalagens, salientando a importância de haver mais investigação e inovação, tanto neste como noutros domínios, e a necessidade do investimento respetivo. Frisa o crescente papel do consumidor nas tendências de mercado, fazendo notar igualmente a relevância do fator preço. Questões como a transição tecnológica e o emprego são igualmente abordadas, e o artigo termina afirmando que “o futuro deve ser colaborativo”, mobilizando “agricultores, sociedade civil, decisores políticos e empresas de vários setores”.

Editorial 9 Jaime Braga analisa o percurso do setor nas últimas duas décadas, aproximadamente, numa perspetiva de sustentabilidade e tendo em conta a questão crucial da transição energética. Faz uma avaliação da evolução dos perfis de consumos de energia e dos balanços energéticos com referência a 2005, envolvendo também o recurso à cogeração e à bioenergia. Em seguida, analisa de que forma as emissões de gases com efeito de estufa do setor agroindustrial evoluíram no mesmo período. Conclui com “perspetivas para a transição dos consumos de energia”, destacando cada um dos principais grupos de combustíveis: derivados do petróleo, gás natural e bioenergia. A fechar a secção, o artigo de Nuno Fernandes Thomaz, da Centromarca, começa por fazer uma contextualização político-económica e fiscal do país, falando das “interrogações do presente” e dos necessários “equilíbrios do futuro”, tendo em conta a incerteza a nível global. Passa depois a uma análise mais detalhada das questões relacionadas com a fiscalidade no que se refere ao setor agroalimentar, nomeadamente o IVA e a necessidade da respetiva harmonização, para impedir discriminação entre produtos e evitar “descompetitividade”. Apresenta para concluir algumas pistas para conseguir estes objetivos. Desenvolvendo um artigo previamente publicado na Ingenium, revista da Ordem dos Engenheiros, Ana Rita Moura e Rui Trindade, do GPP, abrem a secção Observatório detalhando a situação atual e a evolução recente do setor agroindustrial em Portugal. O artigo baseia-se fundamentalmente em duas fontes de informação do INE: as Contas Nacionais e as Contas Integradas das Empresas. As Contas Nacionais possibilitam a análise de diversas variáveis socioeconómicas, tais como o VAB, o emprego ou o comércio internacional, que permitem não só compreender a importância da indústria agroalimentar na economia nacional no período mais recente, mas também analisar as relações intra- e intersetoriais ao nível da procura e da oferta deste tipo de produtos. As Contas Integradas das Empresas permitem uma visão mais desagregada/detalhada do setor empresarial das indústrias agroalimentares (e.g. por categorias de indústria, por dimensão da empresa), com base em indicadores de número de empresas, volume de negócios, pessoal ao serviço, entre outros. É feita também uma análise mais detalhada, dirigida para o setor, dos fluxos e Matrizes Simétricas de Input- -Output. Os autores terminam o artigo com algumas breves constatações sobre a relevância do setor na economia. O artigo de Sara M. Oliveira et al., do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) começa por explicar a génese desta entidade, em parceria com Espanha e com o apoio da União Europeia. Um dos clusters, ou áreas temáticas, do INL dedica-se à investigação de uma Alimentação para o Futuro, desenvolvendo-se em três missões: Embalagens alimentares; Personalização alimentar e Controlo e rastreabilidade alimentar. Todas elas têm por objetivo contribuir para sistemas agroalimentares mais sustentáveis, seguros e promotores da saúde humana, animal e ecossistémica. Os autores descrevem o papel da nanociência e da nanotecnologia neste âmbito, fazendo depois uma síntese dos diversos projetos e iniciativas que têm em curso, em múltiplas parcerias institucionais e empresariais. António Cunha, da Fábrica de Conservas A Poveira, fala do grande dinamismo atual do setor das conservas, sobretudo devido a uma maior consciencialização por parte dos consumidores em relação aos Autor: J.P., Junta Nacional dos Produtos Pecuários (JNPP); acervo do GPP

10 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar benefícios para a saúde deste tipo de alimentos, bem como ao facto de serem produtos “prontos a comer” num tempo em que ninguém tem tempo. No entanto, enumera logo de seguida os desafios que a indústria enfrenta, os quais são, aliás, extensivos a outros setores: sustentabilidade a vários níveis, complexidade da cadeia de abastecimento, mutabilidade nas preferências dos consumidores, oportunidades e constrangimentos da globalização e necessidade de evolução tecnológica, escassez não só de mão de obra, mas também de muitas matérias-primas, dimensão das empresas e competitividade, marcas brancas vs. marcas próprias. Martin Stilwell, do Grupo HIT, descreve sumariamente a história da indústria do tomate em Portugal, centrando-se em seguida na evolução do setor até ao presente e apresentando números para área plantada, número de produtores, produtividade, produção e transformação, bem como exportação/ comercialização e consumo de tomate e derivados do tomate, sublinhando o crescimento dos produtos de maior valor acrescentado. O autor tece considerações sobre a importante relação entre produtores e transformadores e conclui falando sobre o futuro do setor em Portugal e no mundo, assinalando os desafios existentes, mas também as possíveis soluções. No artigo de Tiago Costa, da Nogam, depois de uma breve contextualização das condições atuais da agroindústria nacional e da importância do setor sob múltiplos pontos de vista, o autor fala da capacidade de resposta aos desafios que surgem constantemente, e da necessidade de investir na internacionalização, na profissionalização, na tecnologia e na gestão da informação. Narra depois o percurso da empresa desde a sua criação, com uma forte aposta, por um lado, na satisfação das novas tendências de consumo e da procura de alimentos mais saudáveis e mais sustentáveis e, por outro lado, na tecnologia e na digitalização, sem esquecer o combate a todas as formas de desperdício. Pedro e Álvaro Mendonça fazem uma descrição pormenorizada da evolução do Complexo Agroindustrial do Cachão (CAICA), nas décadas de 1960 e 70, sublinhando o importante contributo que deu para o desenvolvimento não só agroindustrial, mas também social de uma região então muito atrasada. Salientam a personalidade de Camilo Mendonça como mentor e motor de todo o projeto e referem o papel central dos chamados Grémios da Lavoura, e da respetiva Federação do Nordeste Transmontano então constituída, bem como da colaboração estreita com a rede de cooperativas da região. O Plano Integrado elaborado incluía: agricultura e pecuária; industrialização; regadio; mecanização; meios humanos e aspetos sociais. Em epílogo, os autores explicam algumas das razões que levaram ao fim do projeto. A concluir esta secção, o artigo de João Marques, do GPP, procura dar um panorama sucinto de como as políticas de fomento agroindustrial foram sendo aplicadas em Portugal desde a adesão à então CEE, quando a PAC passou a ser o principal instrumento de política para esse fomento. Após sintetizar a evolução da PAC e da sua aplicação em Portugal, o autor apresenta, para cada um dos sucessivos Quadros Comunitários de Apoio, a estrutura de base, a componente de apoio à agroindústria, uma caraterização muito sintética daquilo em que consistiu esse apoio e um quadro resumindo os resultados obtidos, em termos absolutos e em termos de peso no apoio total ao desenvolvimento rural. A secção Leituras abre com uma apresentação do recém-lançado Observatório de Preços da Cadeia de Valor Agroalimentar. Segue-se uma recensão do livro Criar (mais) valor na vinha e no vinho – casos de um ecossistema competitivo, sobre este importante setor agroindustrial, e conclui-se com uma análise de um documento de trabalho pioneiro do Ministério da Agricultura, Complexo Agroindustrial – Análise da Interdependência. Melhorar a nutrição dos idosos através da nanotecnologia, Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) www.inl.int

GRANDES TENDÊNCIAS N.º 29 dezembro de 2023

CULTIVAR v.t. TRABALHAR A TERRA PARA TORNÁ-LA FÉRTIL.

13 O Agroalimentar em três tempos – Passado, presente e futuro da fileira em Portugal JAIME PIÇARRA Engenheiro Agrónomo É comum referir-se que o passado é um presente sem futuro. No entanto, para algumas reflexões, vale a pena ter em conta o enquadramento e a evolução das diferentes conjunturas, políticas, sociais ou económicas das sociedades, para percebermos melhor de onde partimos, como aqui chegámos e até onde queremos ir. Só assim conseguimos perceber o que é possível fazer no curto e médio prazo, sobretudo ao nível da definição das políticas públicas. Esta reflexão é ainda mais relevante neste momento tão desafiante, tão incerto e complexo, num contexto internacional de enorme instabilidade. Ainda no rescaldo da pandemia, uma guerra na Ucrânia sem fim à vista, um conflito no Médio-Oriente que poderá “contaminar” toda a região, a existência de tensões políticas e sociais em muitas geografias, tal como o crescente peso do denominado Sul global, caracterizam este contexto. Para ele contribuem, também, a recente viragem à extrema-direita na Argentina, nos Países Baixos, e, talvez, nos EUA aquando das eleições presidenciais em 2024. Um futuro incerto parece ser a única certeza, pelo menos para o próximo ano (quiçá ainda em 2025), em função das perspetivas e previsões que vão sendo avançadas pelas diferentes instituições internacionais. E, perante este futuro, afinal, que papel tem o agroalimentar? No passado Numa ida ao passado, deparamo-nos com situações delicadas em meados das décadas de 80 e 90 do século XX. Nestes dois períodos, confrontávamo-nos com enormes stocks de leite em pó, manteiga, cereais e carne de bovino, por terem preços mais elevados que os do mercado mundial, o que, devido aos excedentes de produção, …vale a pena ter em conta o enquadramento e a evolução das diferentes conjunturas, políticas, sociais ou económicas das sociedades, para percebermos melhor de onde partimos, como aqui chegámos e até onde queremos ir. Um futuro incerto parece ser a única certeza… E, perante este futuro, afinal, que papel tem o agroalimentar?

14 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar baixava preços numa concretização lógica da lei da oferta e da procura. A Europa tinha, assim, dois problemas: custos de armazenagem e pagamento das restituições à exportação para colocar os produtos nos países terceiros. Eram os tempos em que a Política Agrícola Comum (PAC) se constituía como a única política verdadeiramente comum, com um peso na ordem dos 70% do orçamento e os agricultores a terem uma forte representação nos órgãos de consulta (e de decisão) em Bruxelas, designadamente no quadro das Comissões Consultivas de Mercado. Em 1992, com a reforma MacSharry, foi lançada uma revisão aprofundada, através da qual a nova PAC passou a ter como objetivo reduzir os excedentes (quotas leiteiras, set-aside), regular os preços nos consumidores e respeitar o ambiente. Para além dos pagamentos aos agricultores e dos apoios ligados e desligados – sendo mais visíveis os subsídios que tinham de ser garantidos pela harmonização dos preços internos ao mercado mundial –, a novidade foi o conceito de multifuncionalidade da agricultura. Através deste conceito, tornou-se evidente, e assumido, que a Agricultura não tem apenas uma função de produção de alimentos, mas tem, também, outros desígnios igualmente importantes, tais como a oferta de “bens públicos”, de natureza ambiental, de biodiversidade e de proteção do território. De referir que esta reforma foi aprovada pelo então Ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação de Portugal, Dr. Arlindo Cunha, Presidente do Conselho em exercício, no âmbito da presidência portuguesa. Esta reforma, com revisão programada para 1999 acabou por dar origem à reflexão em torno da Agenda 2000 que visava dar respostas ao alargamento de 2004. Foi, então, introduzida uma forte componente do desenvolvimento rural. A PAC ainda representava cerca de 50% do orçamento europeu. Entretanto, as crises alimentares, fundamentalmente a Encefalopatia Espongiforme Bovina (mais conhecida como BSE) e as dioxinas e as consequentes discussões e reflexões em torno da segurança dos alimentos, do ponto de vista da sua higiene e sanidade, conduziram à publicação do Livro Branco sobre a Segurança dos Alimentos e a toda uma nova estrutura legislativa. Do ponto de vista político- -mediático, temas como a avaliação e comunicação dos riscos alimentares ganham uma dimensão relevante, bem como a sua perceção por parte dos consumidores. Na estrutura da Comissão Europeia, a DG SANTE emerge como uma das mais importantes. Muitos dossiês agrícolas transitam para este novo organismo, com a DG AGRI a perder peso relativo na tomada de decisão. A PAC torna-se, assim, menos agrária e mais alimentar. Lembramo-nos, por exemplo, de o saudoso Eng.º Armando Sevinate Pinto, então Ministro da Agricultura, ou de o Eng.º Fernando Gomes da Silva, que tutelava esta pasta aquando da crise da BSE, se lamentarem sobre o facto de que nos Conselhos Agrícolas já não se discutia agricultura, mas apenas a segurança dos alimentos. É neste contexto que surge a reforma de 2013, já num novo processo legislativo de codecisão entre o Conselho e o Parlamento Europeu, introduzido pelo Tratado de Lisboa. A PAC teria de responder a novas preocupações como as alterações climáticas, o bem- -estar animal, a segurança dos alimentos e a utilização Eram os tempos em que a PAC se constituía como a única política verdadeiramente comum, com um peso na ordem dos 70% do orçamento e os agricultores a terem uma forte representação nos órgãos de consulta (e de decisão)… Foi, então, introduzida uma forte componente do desenvolvimento rural. A PAC ainda representava cerca de 50% do orçamento europeu. … surge a reforma de 2013… A PAC teria de responder a novas preocupações como as alterações climáticas, o bem-estar animal, a segurança dos alimentos e a utilização sustentável dos recursos naturais…

O Agroalimentar em três tempos – Passado, presente e futuro da fileira em Portugal 15 sustentável dos recursos naturais, introduzindo -se a ecologização dos pagamentos diretos (greening). É justo referir aqui o papel do ex-Ministro Dr. Luís Capoulas Santos, então ilustre eurodeputado e relator do Parlamento Europeu, que desempenhou um papel notável em todo este processo. Posteriormente, a 2 de fevereiro de 2017, o então Comissário Phil Hogan lança uma importante consulta pública sobre o futuro da PAC, tendo- -se realizado uma Conferência de Alto Nível em 7 de julho desse ano para analisar o balanço dos resultados da consulta e para preparar as bases de mais uma reforma. Em discussão estavam o futuro das zonas rurais e, pela primeira vez, uma política aberta a toda a sociedade. Existia a noção de que as ajudas ao setor eram mal compreendidas e percecionadas pela opinião pública e publicada e daí decorria a urgência de serem mais bem explicadas para que pudessem ser legitimadas pelos cidadãos. A abertura à Sociedade Civil representou uma inversão acelerada do peso dos representantes da agricultura e da agroindústria nos órgãos de consulta, em função de uma nova representatividade. Os ambientalistas passaram a ter assento nos agora designados Grupos de Diálogo Civil e temas como o bem-estar animal, a saúde animal e plataformas ligadas a novos grupos de interesse ganharam destaque, refletindo um novo quadro institucional. As consultas públicas, das quais, infelizmente, muitos de nós estão alheados, passaram a ser normais e frequentes, complementando os procedimentos de decisão e assumindo-se, não raras vezes, como um “barómetro” para o Parlamento Europeu e Estados-Membros, e, muitas vezes, amplificado pelas redes sociais e plataformas digitais. Na sequência destas consultas, a Comissão apresentou a sua comunicação sobre “O Futuro da Alimentação e da Agricultura”, em novembro de 2017, o Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027, em maio de 2018, assim como as correspondentes disposições legislativas, em junho de 2018. Iniciou-se, assim, o processo de reforma da PAC pós-2020, concluído em 28 de junho de 2021, durante a presidência portuguesa da União Europeia pela, então, Presidente em exercício, a Ministra Maria do Céu Antunes. De acordo com a Comissão Europeia, os objetivos da nova PAC são o de dispormos de uma política mais justa, mais ecológica e mais orientada para os resultados. Chegámos ao presente Como sabemos, estamos perante uma nova abordagem, bem mais exigente e que tem de ser quantificada, dotando os Estados-Membros de uma relativa autonomia na elaboração dos planos estratégicos (os PEPAC) em função das suas necessidades e de acordo com os objetivos gerais da União Europeia. Por outro lado, face a um contexto de crescente preocupação dos cidadãos com as alterações climáticas, a nova arquitetura verde coloca uma tónica muito particular, quiçá demasiado exagerada, nos requisitos ecológicos. A prometida simplificação ficou, uma vez mais, para as calendas e as contradições introduzidas pela Estratégia “Do Prado ao Prato” levantam importantes desafios, mas As consultas públicas, das quais, infelizmente, muitos de nós estão alheados, passaram a ser normais e frequentes, complementando os procedimentos de decisão… … estamos perante uma nova abordagem, bem mais exigente e que tem de ser quantificada… … a nova arquitetura verde coloca uma tónica muito particular, quiçá demasiado exagerada, nos requisitos ecológicos. A prometida simplificação ficou, uma vez mais, para as calendas e as contradições introduzidas pela Estratégia “Do Prado ao Prato” levantam importantes desafios, mas também novas ameaças…

16 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar também novas ameaças, no quadro do contexto internacional em que vivemos. Com o termo segurança alimentar agora mais representativo do conceito de disponibilidade de alimentos, de preferência a preços acessíveis, importa perguntar se esta nova PAC responde aos desafios atuais ou se não terá de ser (novamente) repensada. Neste presente a que chegámos, são percetíveis os impactos dos aumentos dos custos de produção nos alimentos, tal como o impacto da inflação, dos juros e das fragilidades e dependências da União Europeia relativamente à China, aos Estados Unidos da América (EUA) e à América do Sul. Também é percetível o papel da União Europeia na cadeia de abastecimento global. Recorde-se que a Europa não é uma ilha e que estamos claramente na presença de um mundo bipolar. Temos de ter um futuro Na nossa opinião, com a crescente ajuda da União Europeia à Ucrânia, o prometido alargamento começa a ser uma realidade que se perspetiva no quadro do Pacote Alargamento de 20231. Este pacote apresenta-nos uma avaliação pormenorizada do ponto de situação e dos progressos realizados pela Albânia, a Bósnia-Herzegovina, o Kosovo, o Montenegro, a Macedónia do Norte, a Sérvia, a Turquia e também, pela primeira vez, a Ucrânia, a República da Moldávia e a Geórgia relativamente aos seus percursos de adesão à União Europeia. Tal alargamento não será possível sem a introdução de reformas que deverão abranger a PAC, uma 1 https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/pt/ip_23_5633 2 https://state-of-the-union.ec.europa.eu/index_pt discussão que, aparentemente, é lançada em 2024 (pelo menos, já confirmada pela COPA/COGECA) e que, tendo como pano de fundo as lições a retirar do aprofundamento das relações com a Ucrânia e do papel deste país como inegável potência agrícola, abordará temas como as ajudas diretas, os bens públicos, a reserva de crise e os modelos de financiamento. De resto, convém também recordar o discurso da Presidente von der Leyen sobre o Estado da União2, no qual reconhece o papel do Setor Agroalimentar na resposta às recentes crises, tal como a sua notável resiliência e a sua capacidade de adaptação, e convida, ao mesmo tempo, a uma discussão aberta sobre o futuro da agricultura e da alimentação. Curiosamente, continua a notar-se a ausência de discussão acerca da necessidade de se imporem a países terceiros, dos quais a UE importa bens alimentares, as mesmas regras, ou normas equivalentes às que são aplicadas internamente ao nível da segurança alimentar, bem-estar animal, ambiente e sustentabilidade. Onde estão as mirror clauses tão acarinhadas durante a presidência francesa? Não temos dúvidas de que, perante os novos desafios da sustentabilidade (em todas as suas componentes) e do bem-estar animal, que se concretizam nas políticas de transição energética e nas metas, apesar de não vinculativas, da Estratégia “Do Prado ao Prato” e do Pacto Ecológico Europeu, é a segurança alimentar que vai estar no centro da agenda política. … o prometido alargamento da UE… não será possível sem a introdução de reformas que deverão abranger a PAC… … perante os novos desafios da sustentabilidade (em todas as suas componentes) e do bem-estar animal… … é a segurança alimentar que vai estar no centro da agenda política. … convém, então, relembrar que a própria FAO ainda recentemente declarou que não devemos sacrificar a segurança alimentar em nome da sustentabilidade.

O Agroalimentar em três tempos – Passado, presente e futuro da fileira em Portugal 17 A este propósito convém, então, relembrar que a própria FAO ainda recentemente declarou3 que não devemos sacrificar a segurança alimentar em nome da sustentabilidade. É também essa, claramente, a nossa opinião. E em Portugal, como está o nosso futuro? A Indústria da Alimentação e Bebidas representa um volume de negócios na ordem dos 22,4 mil milhões de euros, ou seja, 17,6% da indústria transformadora. É, inegavelmente, o grande cliente da agricultura e motor do seu desenvolvimento. São evidentes as sinergias entre ambos e a evolução mútua, cada vez mais em termos de fileira ou através de integrações empresariais. A agricultura é, também, fornecedora de consumos intermédios de alguns outros subsetores, destacando-se neles os alimentos para animais, que têm um peso de 49,3% do total dos inputs das explorações agropecuárias. A competitividade da denominada “indústria pecuária” – a produção de carne, leite, ovos e aquicultura – depende, como se constatou no início da invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, dos preços das matérias-primas e da evolução dos preços dos alimentos compostos para animais. Porque a cadeia alimentar começa verdadeiramente no solo, importa, pois, conter os custos de produção, alimentos para animais, fertilizantes, e fitofármacos, apoiar estes setores, mas, sobretudo, os produtores, com ajudas robustas e previsibilidade. Só assim é possível manter os preços da alimentação viáveis para produtores e razoáveis para consumidores. Pese embora o setor agroalimentar tenha sido assumido como uma área de refúgio durante o período da troika, uma das conclusões que se podem retirar num estudo recente do GPP, e sobretudo nas séries 3 https://www.euractiv.com/section/agriculture-food/news/fao-official-eu-shouldnt-sacrifice-food-output-in-sustainabilitys-name/ longas, é a de que o seu crescimento tem sido relativamente anémico. Existe ainda um déficit elevado, na ordem dos 5 mil milhões de euros. Nada disto é novidade, apesar da excelência de algumas empresas agrícolas e agroalimentares, apesar da melhoria nos sistemas de controlo de qualidade, da eficiência e da implementação das mais modernas tecnologias. Ainda é curto. Parece que não descolamos. Mesmo quando aumentamos o VAB (Valor Acrescentado Bruto) o que aconteceu na sequência da guerra, tal ficou a dever-se aos aumentos de preços via mercado (e custos) e não a produtos de maior valor acrescentado, diferenciadores ou inovadores. Só quando incluímos a componente florestal é que o déficit diminui significativamente, mas subsiste o problema na indústria alimentar. É este o contexto em que trabalhamos e sabemos que os próximos anos não vão ser fáceis, pelo contrário. Nem do lado da oferta – com tantas restrições em termos de regulação e de natureza ambiental, com mais custos –, nem do lado da procura – com consumidores claramente com menor poder de compra. Nos casos específicos da alimentação animal e da moagem, fornecedores de bens essenciais, é sabido que uma componente relevante das importações são os cereais e as oleaginosas, o que, à data de hoje, contribui para agravar o déficit, mas a solução para o conter não pode passar pela redução da pecuária, ou do consumo de pão e derivados. Temos de criar condições para aumentar a produção agrícola e para aproximar a agricultura da indústria. Confrontamo-nos, igualmente, com problemas estruturais que se arrastam há décadas, em sucessivos governos: o licenciamento, os custos de contexto A Indústria da Alimentação e Bebidas… É, inegavelmente, o grande cliente da agricultura e motor do seu desenvolvimento. …mas o crescimento do setor agroalimentar tem sido relativamente anémico.

18 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar caracterizados por inúmeras taxas e taxinhas, a gestão da água, os recursos humanos e a respetiva qualificação, a falta de visão integrada das infraestruturas portuárias que se concretiza no funcionamento deficiente da SILOPOR e nos desafios da armazenagem e do funcionamento equilibrado ao longo da cadeia alimentar (terá a PARCA4 futuro?). Também a falta de apoio às exportações tem sido um fator de bloqueio, condicionando o nosso desenvolvimento e afirmação. Finalmente, a revisão da política fiscal que, mais uma vez, não foi contemplada no Orçamento de Estado para 2024. Temos aqui, pelo menos, duas questões para a próxima legislatura: a baixa do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) e a sua harmonização relativamente à média europeia; a manutenção das isenções de que o setor beneficia e que, tendo em conta as perspetivas para o próximo ano, é essencial que se mantenham em 2024. No que respeita ao IVA, não é aceitável que tenhamos uma taxa de 23% para produtos transformados que são adquiridos nos supermercados, mas que passam a ser taxados a 13% quando disponibilizados pela restauração. Não é, igualmente, admissível que os alimentos para animais de companhia sejam taxados a 23%. Uma vez mais, defendemos que sejam tributados a 13%, promovendo a saúde e o bem-estar animal e sendo um elemento dissuasor do abandono, uma realidade que não parece dar tréguas e que só nos envergonha enquanto sociedade. 4 Plataforma de Acompanhamento das Relações na Cadeia Alimentar É necessário iniciar um debate sério e construtivo, para que o IVA seja alinhado com a média europeia em todos os produtos alimentares. Por outro lado, numa altura em que é tão importante a inovação, não se compreende que os produtos inovadores, apenas porque inovam, sejam taxados de imediato a 23%. Em Bruxelas, estão em curso, ou já com legislação publicada, dossiês tão relevantes como a utilização sustentável de pesticidas, o bem-estar animal (designadamente, no transporte e no fim da utilização de gaiolas), as cadeias livres de desflorestação, os sistemas alimentares sustentáveis, as práticas comerciais desleais, os relatórios de sustentabilidade das empresas, as novas técnicas genómicas (reconhecidas como muito relevantes para a sustentabilidade da agricultura) ou o plano europeu para a proteína, absolutamente estratégico, e transversal a todo o setor. Trata-se de um conjunto de propostas merecedoras de particular cuidado, de estudos sérios de impacto, sem populismos ou demagogias, olhando para o “mundo real”, porque corremos o risco de criar disrupções e ruturas nas cadeias de abastecimento, pelas diferentes visões e normas entre a União Europeia e os nossos principais competidores (e fornecedores) no mercado mundial. Aliás, a Portugal interessa cada vez mais a promoção do multilateralismo nas relações comerciais, contra o crescente protecionismo que tende a imperar em muitas geografias e, infelizmente, em alguns Estados-Membros da União Europeia. Confrontamo-nos, igualmente, com problemas estruturais que se arrastam há décadas, em sucessivos governos: o licenciamento, os custos de contexto … … a gestão da água, os recursos humanos e a respetiva qualificação, a falta de visão integrada das infraestruturas portuárias… …a revisão da política fiscal que, mais uma vez, não foi contemplada no Orçamento de Estado para 2024. As proteínas são macronutrientes essenciais na nutrição humana, tendo em vista dietas equilibradas e saudáveis e, embora a principal fonte de proteína para os humanos seja a carne e outros produtos de origem animal, o facto é que a alimentação animal é deficitária em fontes de proteína…

O Agroalimentar em três tempos – Passado, presente e futuro da fileira em Portugal 19 O exemplo da proteína é paradigmático. As proteínas são macronutrientes essenciais na nutrição humana, tendo em vista dietas equilibradas e saudáveis e, embora a principal fonte de proteína para os humanos seja a carne e outros produtos de origem animal, o facto é que a alimentação animal é deficitária em fontes de proteína, sobretudo de alto teor proteico e ainda mais se tivermos em conta a alimentação de suínos e aves. É, assim, importante reduzir a dependência da União Europeia nesta matéria e, como tal, todas as fontes devem ser consideradas – algas, insetos, coprodutos da indústria alimentar ou dos biocombustíveis –, para além da promoção das proteaginosas. Até que a Plena Economia Circular possa ser uma realidade na União Europeia, convém assumir que a nossa dependência, nomeadamente da soja, vai demorar alguns anos a resolver – segundo a Comissão, iremos necessitar ainda de 17,5 milhões de toneladas de oleaginosas em 2032 –, pelo que é muito relevante não criar entraves legais ou barreiras técnicas às importações. O último relatório da Comissão sobre as perspetivas de médio prazo 2022/20325 prevê uma expansão das áreas de soja e de proteaginosas até 825 000 ha na próxima década na União Europeia, com a soja a aumentar 33% e as leguminosas 55%, situando-se nas 6,7 milhões de toneladas, dos quais, 3,9 milhões serão destinadas à alimentação animal e 2,6 milhões de tons ao consumo humano. No que respeita a perspetivas sobre o futuro, não podemos deixar de referir que outras análises apontam para um menor consumo de carne de bovino e suíno (-7,8% e -4,0%, respetivamente), com a carne 5 https://agriculture.ec.europa.eu/system/files/2023-04/agricultural-outlook-2022-report_en_0.pdf 6 https://futuros.gob.es/en/our-work/OSA de aves em alta até 2032 (+3,0%). O consumo de alternativas vegetais e sobretudo a carne de laboratório tenderão a ser marginais, pelo menos, num futuro próximo, apesar de as dietas vegetarianas, veganas e flexitarianas serem tendências em crescimento, em particular junto dos mais jovens. O consumo de vegetais, sobretudo frutas e hortícolas, deverá aumentar seguramente. As preocupações com as dietas saudáveis e sustentáveis serão cada vez mais uma realidade, mas convém que a alimentação saudável tenha em conta os estilos de vida, também saudáveis, dietas equilibradas e avaliações nutricionais baseadas em critérios científicos e não na diabolização de alimentos ou ingredientes, como acontece atualmente com o sal, as gorduras e o açúcar. No horizonte do futuro está, também, como já referimos, as ameaças do protecionismo que são um sério risco em muitas geografias. Por isso, a visão sobre a Estratégia de Autonomia Aberta6, apresentada pela presidência espanhola da União Europeia e cuja discussão irá decorrer, certamente, nos próximos meses, representa uma resposta aos enormes desafios que temos pela frente. Responder às tendências e exigências dos consumidores, da opinião pública, aos desafios societais, mas criando condições em Portugal para a afirmação do Agroalimentar tem de ser um desígnio de todos e assumido pelo próximo governo. Com eleições legislativas em março, europeias em junho, um novo Governo em Portugal em abril e uma … convém que a alimentação saudável tenha em conta os estilos de vida, também saudáveis, dietas equilibradas e avaliações nutricionais baseadas em critérios científicos e não na diabolização de alimentos ou ingredientes… Responder às tendências e exigências dos consumidores, da opinião pública, aos desafios societais, mas criando condições em Portugal para a afirmação do Agroalimentar tem de ser um desígnio de todos e assumido pelo próximo governo.

20 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar Comissão Europeia e Parlamento que deverão iniciar funções no último trimestre de 2024, durante a Presidência da Hungria, sabemos que não teremos tarefa fácil. Perante tantos dossiês complexos, que se interligam, e para os quais vamos necessitar de múltiplas abordagens e de parcerias com outras áreas governativas (ambiente, saúde, economia, coesão, infraestruturas), é ainda mais importante que Portugal tenha um Ministério da Agricultura e Alimentação forte, politicamente relevante, requalificando as competências e os recursos humanos de que dispõe. Que coloque a Agricultura e Alimentação no centro da agenda política, como um setor absolutamente estratégico. Porque existe futuro para o Agroalimentar, não podemos aceitar que nos condenem à indiferença e ao empobrecimento.

21 Indústria portuguesa agroalimentar – Desafios e perspetivas futuras PEDRO QUEIROZ Diretor-Geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares (FIPA)* Um setor resiliente A indústria portuguesa agroalimentar tem vindo a afirmar-se como o maior setor de base industrial e integra uma das fileiras estratégicas para a dinamização da economia nacional. Com mais de 11 mil empresas e cerca de 110 mil postos de trabalho diretos e mais de 500 mil indiretos, o setor é responsável por um volume de negócios que estará a caminhar para um recorde de 19 mil milhões de euros no final de 2023 (projeções FIPA com base INE). No ano 2022, as exportações ultrapassaram pela primeira vez a barreira dos 7 mil milhões de euros (INE: ramos 10 e 11 da CAE rev.3), o que demonstra a ambição do setor e o reconhecimento externo da qualidade dos produtos nacionais. Apesar de algum abrandamento, ainda será possível atingir nova fasquia no final de 2023. É uma indústria com desempenhos de excelência no que respeita à segurança dos alimentos, com inovação permanente ao nível da qualidade nutricional, com compromissos assumidos na transição para uma economia mais sustentável e que, apesar dos tempos de enorme volatilidade, tudo tem feito para manter a sua capacidade produtiva e a viabilidade económica. Se dúvidas houvesse, na conjuntura gerada pela pandemia e, posteriormente, pela guerra, as empresas do setor afirmaram o seu papel insubstituível, mesmo quando as disrupções no dinamismo da cadeia de valor agroalimentar se conjugaram numa tempestade perfeita. Resiliente é, por isso, a palavra que caracteriza um setor que, num contexto económico e social bastante desafiante, contraria diariamente a tendência de estagnação e reafirma o seu potencial de crescimento e desenvolvimento, assente numa capacidade produtiva com recurso a novas tecnologias, que resulta em * https://www.fipa.pt/ Resiliente é a palavra que caracteriza um setor que, num contexto económico e social bastante desafiante, contraria diariamente a tendência de estagnação e reafirma o seu potencial de crescimento e desenvolvimento, assente numa capacidade produtiva com recurso a novas tecnologias… e onde a ecoeficência é uma das bandeiras.

22 CADERNOS DE ANÁLISE E PROSPETIVA CULTIVAR N.º 29 DEZEMBRO 2023 – Indústria agroalimentar produtos inovadores, com um design de embalagens moderno e onde a ecoeficência é uma das bandeiras. Tudo isto a par de alimentos seguros e saudáveis e onde não pode ser esquecida a boa relação preço/qualidade. Antecipar tendências e construir um caminho robusto para a esta indústria é, por consequência, a ambição do setor e de cada empresa que o compõe. Investir em Portugal e no agroalimentar significa estar presente na vanguarda da inovação, onde o trabalho é feito em parceria, por exemplo, com a academia, e tem sempre como foco o consumidor. Construir sistemas alimentares sustentáveis O mundo enfrenta desafios ambientais, económicos e sociais a uma escala nunca antes vista, pelo que se impõe a construção de sistemas alimentares resilientes e sustentáveis que possam enfrentar os novos tempos, garantir a segurança alimentar e proteger o planeta. Para evitar consequências irreversíveis e desastrosas para as gerações vindouras, o combate às alterações climáticas tem de estar na prioridade das agendas. A produção de alimentos “do prado ao prato” representa 30% do total das emissões de carbono na União Europeia, sendo a fase de transformação responsável por 3% do total dessas emissões. No entanto, a alimentação é uma das primeiras vítimas das alterações climáticas. Assim, a indústria agroalimentar está bem posicionada não apenas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa das suas próprias operações, mas também para trabalhar com os diferentes parceiros para intensificar a redução ao longo de toda a cadeia de valor. Simultaneamente, tem de enfrentar desafios ambientais inter-relacionados, nomeadamente o desperdício alimentar, a desflorestação e o aprovisionamento insustentável. Adicionalmente, as embalagens são atualmente alvo de intenso debate. Por um lado, desempenham um papel vital na proteção, conservação e transporte de produtos alimentares e bebidas até aos consumidores. No entanto, a sua produção e utilização podem ter impactos ambientais adversos. Quando as embalagens são descartadas, em vez de reutilizadas ou recicladas, os danos ambientais para o nosso planeta são exacerbados. Como um dos principais utilizadores de embalagens, a indústria alimentar e das bebidas tem um papel importante a desempenhar na melhoria da circularidade das mesmas e na promoção de soluções inovadoras. A transição para sistemas alimentares sustentáveis exigirá investimentos significativos ao nível das práticas e das inovações necessárias para transformar a forma como cultivamos, fabricamos e consumimos alimentos e bebidas. Investigação e Inovação A investigação e a inovação (I&I) são fundamentais para tornar os sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes, inclusivos e promotores de uma alimentação cada vez mais saudável. Embora a indústria agroalimentar esteja ativamente envolvida nos diversos processos, não pode alcançar sozinha todas as respostas. O investimento público em I&I colaborativas é essencial para encontrar novas soluções para os desafios que enfrentamos, como o combate às alterações climáticas, a perda de biodiversidade e o apoio a regimes alimentares mais saudáveis e sustentáveis. Atualmente, a maior fatia da inovação é incremental, composta por pequenas inovações contínuas e graduais. Temos uma indústria agroalimentar bastante madura na maior parte das categorias, o que permite utilizar o conhecimento e o domínio sobre o negócio para ir dando Como um dos principais utilizadores de embalagens, a indústria alimentar e das bebidas tem um papel importante a desempenhar na melhoria da circularidade das mesmas e na promoção de soluções inovadoras. Atualmente, a maior fatia da inovação é incremental, composta por pequenas inovações contínuas e graduais.

Indústria portuguesa agroalimentar – Desafios e perspetivas futuras 23 respostas aos desafios do mercado e às exigências dos consumidores, procurando manter os níveis de competitividade. Esta tipologia de inovação exige investimentos mais baixos e comporta riscos menores, permitindo proteger o modelo de negócio. Podemos dar como exemplos as novas texturas ou sabores nos produtos lácteos, a introdução de novos ingredientes nos produtos de panificação, a diversidade que hoje encontramos no setor das bebidas, os novos formatos de consumo de café ou a reformulação nutricional que está hoje a ser desenvolvida no âmbito de um compromisso público – também ele inovador – em categorias como os cereais de pequeno-almoço, refrigerantes, néctares, snacks, leites achocolatados ou iogurtes. Temos igualmente inovação incremental em setores mais tradicionais como o azeite ou as conservas. Estar fora deste patamar de inovação é hoje um enorme risco. No entanto os desafios não se ficam por aqui e temos muitas categorias que estão a introduzir inovações mais disruptivas. Curiosamente, um dos principais investimentos tem sido ao nível das embalagens, como resposta aos permanentes desafios da segurança dos alimentos e das preocupações ambientais. Mas a indústria procura ir mais longe, estudando e introduzindo novos ingredientes, tais como as farinhas de insetos, ou adaptando a composição dos produtos a necessidades específicas (sem glúten ou sem lactose). O consumidor está a ter um papel cada vez mais ativo e influente ao nível da criação ou alteração dos produtos alimentares. Quer ter um maior controlo ao nível dos ingredientes – dando prioridade a produtos considerados mais naturais –, privilegia a relação entre os alimentos e a sua saúde – desde a composição nutricional à prevenção de fatores de risco – e tem como critério de escolha valores como a pegada ambiental, o combate ao desperdício ou a defesa dos pequenos produtores e trabalhadores. Apesar destas tendências, temos de ter a consciência que, para muitos consumidores, o fator preço é a grande prioridade, continuando a ser muito influenciados por campanhas promocionais no ponto de venda. Infelizmente, temos também muita desinformação, em particular nos meios digitais, que leva ao surgimento de modas ou perceções que fogem às evidências científicas e que em nada contribuem para a valorização do trabalho bastante positivo que a indústria tem feito. Transição tecnológica e emprego À medida que a transição tecnológica no setor agroalimentar vai fazendo o seu caminho, é expectável que os fatores competitivos assentem prioritariamente na capacidade de criar valor por via da otimização de processos, com recurso a sistemas digitais e linhas de produção automatizadas, o que coloca às empresas crescentes desafios ao nível do recrutamento. Cada vez mais os trabalhadores serão contratados para desempenhar funções assentes no conhecimento especializado. De facto, trabalhar num ambiente onde a produção e o layout fabril estão organizados para acomodar os princípios da indústria 4.0 é completamente diferente de uma envolvente de linhas tradicionais. O ambiente digital impacta a organização do trabalho, as tarefas a realizar e as tecnologias a utilizar, criando necessidades muito especificas ao nível das Esta tipologia de inovação exige investimentos mais baixos e comporta riscos menores, permitindo proteger o modelo de negócio. O consumidor está a ter um papel cada vez mais ativo e influente ao nível da criação ou alteração dos produtos alimentares. Quer ter um maior controlo ao nível dos ingredientes … privilegia a saúde… e tem como critério de escolha valores como a pegada ambiental, o combate ao desperdício ou a defesa dos pequenos produtores e trabalhadores.

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